Um compromisso para com a Saúde
Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica…
Escrevia Fernando Pessoa através do seu heterónimo Álvaro Campos que uma grande constipação pode alterar todo o sistema do universo. Confesso que não conhecia este poema, descobri-o por acaso durante o confinamento num livro composto por uma antologia de poemas contemporâneos intitulado Poemas da Saúde e da Doença, organizado por José Fanha e Pedro Quintas. Esta frase imprimiu-se no meu cérebro e durante dias vinha-me à cabeça e embora não tenha espirrado nem estado constipado, a situação pandémica presente fez-me ficar zangado com a vida.
Com o somar dos dias de confinamento, sentia saudades da rotina e inclusivamente de sentir, ouvir e ver o desconforto das pessoas apinhadas no metropolitano em hora de ponta, de subir a pé a escadas da Baixa-Chiado, da calçada escorregadia nos dias de chuva e dos turistas que paravam à minha frente de 3 em 3 segundos. Ter saudades do que antes era desconforto foi uma novidade que não pensei poder sentir. Tal como o poema do Álvaro de Campos, houve outro momento que me ficou impresso na memória, uma reportagem televisiva sobre uma médica do Hospital São João, no Porto, que durante várias semanas, para não contaminar os seus, olhava e “tocava” no seu filho pequeno através da porta de entrada do seu prédio. A atitude profundamente altruísta desta médica, arrepiou-me. Eu sentia saudades do desconforto e ela “impossibilitou-se” a si mesma ao conforto.
Lisboa tem sido ao longo da sua história assolada por múltiplas pandemias, a História da cidade relata os danos por elas causados, mas também o estoicismo dos seus habitantes em as combater e em impossibilitaram-se ao conforto. A necessidade e a resiliência dos alfacinhas fizeram nascer em agosto de 1498, na capela da Terra Solta, no claustro da Sé de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia. No seu compromisso fundador, a instituição obrigou-se visitar e curar os enfermos, pelo que de imediato a misericórdia procurou estar nos espaços de apoio, fossem eles prisionais, domiciliares ou hospitalares.
A confiança depositada na instituição ao longo de mais de cinco séculos releva a importância que a obra: visitar e curar os enfermos teve na missão da Misericórdia, como se comprova pelo largo conjunto patrimonial hospitalar que a instituição tem vindo a possuir e a administrar, destacando-se os anexos da sua antiga Igreja da Misericórdia (Hoje da Conceição Velha), a administração desde 1564 do Hospital de Todos os Santos ao Rossio e depois do Real Hospital de São José, a enfermaria do Amparo, o Hospital de São Roque, o Sanatório de Sant’Ana, o Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, o Centro de Saúde e Assistência Dr. José Domingos Barreiro ou a Unidade de Cuidados Continuados Integrados Maria José Nogueira Pinto, entre outros.
Todos os terceiros domingos do mês, pelas 14h30, o Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural (SPDC) organiza uma visita guiada ao Hospital de Sant’Ana (HOSA), a qual eu e outros colegas do serviço temos o gosto e privilégio de conduzir. Este hospital foi mandado construir por intervenção de uma septuagenária portuense no início do século XX, no apoio ao combate ao crescente número de doentes infectados com tuberculose. Dona Claudina Chamiço será a derradeira benemérita desta intenção, a sua idade avançada não a coibiu de assumir o desejo familiar de construir um edifício que garantisse a melhor qualidade profiláctica, sanitária e arquitectónica, para pessoas que somavam à sua condição de tuberculosos a da serem na sua maioria meninas pobres, chamando para a construção do equipamento alguns dos principais artistas, médicos e arquitetos portugueses do inicio do século XX.
No âmbito da iniciativa Santa Casa Abre Portas, o SPDC, realiza uma visita guiada ao Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão (CMRA), este espaço inovador pensado ainda na década de 50, visou ir ao encontro de todas as pessoas com limitações motoras, promovendo a sua recuperação reabilitação e reintegração na sociedade. Tal como no Hospital de Sant’Ana, a construção do CMRA reuniu mestres de várias áreas laborais, os quais irão demonstrar que a reabilitação dos pacientes teria de ser um processo holístico entre profissionais de áreas distintas e que a mesma teria de integrar o espaço hospitalar no processo de reabilitação.
Rosendo Carvalheira e Formosinho Sanchez foram os arquitetos responsáveis pelo HOSA e pelo CMRA. Ambos procuraram envolver a comunidade científica, médica e artística no processo construtivo dos nosocómios, estes não poderiam mais ser locais aleatórios, fechados ao mundo exterior e isolados das famílias dos pacientes e da sociedade, mas sim espaços pensados para o tratamento, recuperação e humanização dos doentes, integrando a visão do paciente com a envolvente natural do edifício, o seu mundo familiar e a sociedade.
A história da Saúde em Portugal, relembra a resiliência do génio humano quando confrontado com a doença e os perigos e preconceitos que dela advêm. De Pedro Hispano, a Garcia de Horta, Ribeiro Sanches, Sousa Martins a Santana Carlos, muitos foram os médicos que se impossibilitaram ao conforto, devemos-lhe a importância que tiveram no tratamento, na produção literária, na partilha de informação médica mas também na influência da construção dos edificados e de como estes foram criados como obras para amenizar o sofrimento e a angústia do enfermo.
A UNESCO definiu na sua Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, Artigo 7.º de 2001, que “O património, sob todas as suas formas, deverá ser preservado, valorizado e transmitido às gerações futuras enquanto testemunho da experiência e das aspirações humanas, de forma a fomentar a criatividade em toda a sua diversidade e a inspirar um diálogo genuíno entre as culturas”. Em tempos de pandemia o património hospitalar e locais como o Hospital de Sant’Ana e o Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão inspiram-nos a aprender e valorizar a experiência adquirida pelos mestres do passado na demanda de soluções presentes, soluções essas que mais do que nunca devem ser genuinamente partilhadas por todos, porque só assim no final poderemos “ficar todos bem”.
Ricardo Máximo, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural