O Convento de Santos-o-Novo…

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

Do Convento de Santos-o-Novo…

Dos edifícios de valor cultural mais recentemente integrados no Património da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, merece especial destaque nestas Notas soltas o Convento de Santos-o-Novo. Edifício imponente, que se eleva numa das colinas a oriente na cidade de Lisboa.Teve o lançamento da sua primeira pedra em 1609, a partir de um sonho do Cardeal-Rei Dom Henrique, porém, só se tornaria realidade no período Filipino, por especial empenho de Dom Cristóvão de Moura, Vice-Rei e Marquês de Castelo Rodrigo, para as Comendadeiras da Ordem de Santiago. Mas a sua história é longa, pois só viria a ser terminado setenta e seis anos depois, em 1685, já no reinado de D. Pedro II. Tornou-se assim, símbolo da grandeza das suas Donas, bem como da extensa existência da Ordem de Santiago, desde o nascimento da nacionalidade até à sua extinção.

Apraz-nos pois escrever sobre este edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público em 1983,ao qual temos dedicado muitos anos de estudo e entrega, mas mais do que o tempo dedicado, importa não deixar no esquecimento tão notável edifício que ainda hoje continua a revelar surpresas, as quais tivemos o contentamento de as descobrir e de as poder revelar ao público.

A acção mecenática da corte Filipina embora breve foi particularmente decisiva no que diz respeito à construção deste novo edifício conventual. No entanto, pouco tempo antes da sua edificação, outras obras como o Colégio da Companhia de Jesus e, posteriormente, São Vicente de Fora, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, constituíram as primeiras experiências que se tornaram verdadeiros modelos para a arquitectura nacional posterior.

Um nome surge ligado à obra de Santos-o-Novo, Mateus do Couto, a que se refere um alvará régio de 1617, citado por Sousa Viterbo, que afirma: Dom Filipe (…) faço saber que havendo respeito a Mateus do Couto (…), estar nomeado pelo Marquês de Castelo Rodrigo, (…) para olheiro e apontador da obra do novo mosteiro de santos da dita ordem, e o tempo que exercitou esta ocupação o haver feito bem e como cumpria a meu serviço (…).

No plano original, com projecto atribuído ao Arquitecto Régio,Baltazar Álvares, previa uma igreja a eixo, ladeada por dois claustros de três pisos. O projecto introduziu em Lisboa um exemplar de escala imperial, à semelhança do Escorial, não tendo chegado porém, a ser construído na íntegra, pelas dificuldades financeiras e o advento da Restauração, que tal projecto megalómano acarretava, frustrando assim a conclusão do projecto, que ficou reduzido a apenas um dos claustros (ainda assim o de maior área coberta da Península) e a uma igreja provisória hoje célebre pela decoração barroca de talha dourada, azulejos e embutidos marmóreos.

A História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, revela-nos que o edifício projectado era(…) tão grandioso que pelo ser tanto não há muitas esperanças de se acabar conforme a traça com que se começou(…) Do que chegou até nós, ou do que se conseguiu construir, e apesar dos danos causados pelo terramoto de 1755, este monumento é um exemplar de todo um percurso artístico de um país que atravessou várias crises e tentou supera-las.

A falta de gente para a construção, a que se seguiu o desinteresse generalizado dos patrocinadores, parece estar na origem do arrastamento das obras por mais de setenta anos, e mesmo assim a obra ficou incompleta e empobrecida, não chegando a um terço do projectado.

O edifício actual, apresenta a forma de uma quadra perfeita (80 x 80 m), organizado em torno de um espaço aberto, correspondente ao claustro de dois pisos, onde se localizam duas capelas, a do Senhor dos Passos e a de Nossa Senhora da Encarnação e sete Passos da Via-sacra, no Claustro inferior, e no claustro superior existiram as capelas de São Sebastião, Santos Mártires (Patronos do Mosteiro), Nossa Senhora da Conceição, Santo António e de Nossa Senhora da Luz, desmanteladas em 1921. Na ala nascente do quadrilátero destaca-se um corpo rectangular saliente, adossado no sentido nascente-poente. Esse corpo é ocupado pela igreja, cuja porta principal, virada a sul, abre lateralmente, disposição habitual em conventos femininos, deixando o eixo axial, reservado ao altar-mor e ao coro das Comendadeiras.Esta igreja não obedece, pois, à disposição do projecto Filipino. Neste orientava-se pelo eixo norte-sul, com fachada voltada ao rio, abrindo sobre a arcaria pensada como galilé do templo. Pela dimensão dos arcos ainda existentes, a igreja deveria ser de maiores proporções do que a existente, mais de acordo com a extensão de todo o complexo conventual.O edifício, cujo volume da construção se destaca pela escala e pelo desenho na malha urbana da cidade, é um dos melhores exemplares da arquitectura de transição do século XVI para o XVII, pela sua invulgar dimensão, qualidade, sobriedade e austeridade arquitectónicas.

Ao longo dos alçados exteriores surgem trezentas e sessenta e cinco janelas distribuídas pelos três pisos, constituindo uma monotonia rítmica. As janelas são na sua forma de inspiração palladiana, semelhantes entre si, rectangulares e de enquadramento estreito, sendo algumas, guarnecidas com grades de ferro forjado,correspondendo às capelas existentes no claustro. A quebrar esta monotonia, surgem-nos ângulos do edifício, um par de pilastras toscanas de grande altura e inspiração serliana.

O vasto claustro com o seu aspecto urbano, faz lembrar as Plaza Mayor que, entre nós, nunca foram tratadas desta forma unitária e imponente. Em Lisboa, só mais tarde, o Terreiro do Paço reflectiria esses modelos, numa organização que se aproxima da disposição adoptada no andar térreo deste claustro.

A vida diária desenvolvia-se em torno do claustro, para cujo primeiro piso abriam as moradias, numa sucessão de portas e janelas que dão aos corredores do claustro o inesperado aspecto de arcadas de uma praça urbana, ideia reforçada pelas excepcionais dimensões dessa quadra aberta. O Convento de Santos-o-Novo, é assim uma arquitectura simples, austera e funcional, que revela uma calma monumental exterior e interior.

Após a extinção das Ordens Religiosas, que neste Convento se deu em 9 de Maio de 1895, com a demência da última Comendadeira e que veio a morrer em 1896, a instituição passou por inúmeras vicissitudes.

Depois da implantação da República, o edifício Conventual, converteu-se num dos Recolhimentos da Capital destinado ao acolhimento, em habitações individuais de senhoras filhas e viúvas de militares e dependente da Direcção Geral de Assistência.

Passou nessa altura, a partilhar o espaço ao nível do claustro superior, com uma Escola Primária(masculina e Feminina) e posteriormente com a construção de uma nova escola perto do convento, passou a uma residência para filhos de professores, aSecção Masculina do Instituto do Professorado Primário Oficial.

Resultante desta divisão, o imóvel encontra-se actualmenteafecto a três instituições: a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa na valência de residências assistidas para idosos, no claustro inferior, o ISCTE, enquanto residência universitária de alunos de ERASMUS, no claustro superior e o Patriarcado de Lisboa – Irmandade do Senhor dos Passos (erecta neste Convento em 1705), nas duas capelas do claustro e na igreja conventual.

A Igreja conventual passou a Paroquial de São Francisco de Assis, a 25 de Março 1959 por Decreto do Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, até à mudança para a nova Igreja Paroquial, em 2002.

As surpresas? Essas, guardámos para o fim: a descoberta em 2001 de duas tábuas quinhentistas, representando “A Virgem e as Santas Mulheres” e “Os Soldados deitando sortes sobre a túnica de Cristo”, escondidas sob uma tela, e pertencentes ao famoso retábulo de Santos o Novo, atribuído a Gregório Lopes, que se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga. A mais recente descoberta, a arca-relicário dos Santos Mártires de Lisboa, Máxima, Júlia e Veríssimo, obra datada de c. de 1490, oferta de D. João II, para a nova casa que ele próprio mandou erguer, no sítio de Nossa Senhora do Paraíso, muito perto do actual Convento. Mas não nos alongamos mais, pois estas descobertas serão objecto de outro texto que iremos partilhar em breve.

Estas notas são pretexto para que quem não conhece este tesouro, venha descobrir, e quem já conhece, venha recordar, porque há sempre um novo olhar…

Paulo Santos Costa, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural