Nossa Senhora no coração do povo
As primeiras representações da mãe de Cristo remontam ao século II, à arte paleo-cristã. Presentes nas catacumbas de Santa Priscila em Roma, são representações da Virgem com o Menino.
Mas em termos teológicos foi no Concílio de Éfeso, em 433, que foi afirmada a divindade e humanidade de Jesus e Maria triunfou como Théotokos – Mãe de Deus.
Assim, na arte bizantina multiplicaram-se as representações da Virgem com o Menino e os ícones são uma verdadeira escrita em imagem, em que há uma tensão assinalável entre os representados de grandes olhos e o fiel que os lê e neles projeta os seus anseios.
O amor do povo por Maria foi ainda mais acentuado com o culto das imagens lucanas. Foi no Oriente que primeiramente se acreditou que o primeiro de todos os registos de Maria teria sido da pena do Evangelista São Lucas, trazido, no ano de 460, de Jerusalém pela Imperatriz Eudóxia, esposa de Teodósio II, de Bizâncio. Deste protótipo foram representadas muitas imagens que mais tarde adquirem também a atribuição de São Lucas.
Na Península Ibérica, o rei visigótico Recaredo converte-se ao cristianismo no 3.º Concílio de Toledo, em 589, e no 10º Concílio de Toledo, em 656, foi instituída, a 8 de Dezembro, a primeira festa dedicada a Maria, A Conceção da Virgem ou Virgem do Ó.
Nessa altura, Santo Ildefonso, arcebispo da mesma cidade, escreve um tratado sobre a virgindade de Maria, dando enlevo à devoção mariana nas Espanhas.
Para Erwin Panofsky, “Bastará recordar o facto, estabelecido por muitas décadas de investigação séria e frutuosa, de que eram milhares os laços que ligavam o Renascimento à Idade Média;[…] e de que tinha havido fortes revivescências menores antes da «grande revivescência» que culminou na época dos Médicis”
Na verdade, o impulso ao culto Mariano na passagem do século XII para o XIII é uma dessas revivescências menores. Os novos frades Franciscanos e Dominicanos são verdadeiros cavaleiros da Virgem e difundem o seu culto pelos povos. São Bernardo, fundador da ordem Cisterciense, comentando o Cântico dos Cânticos, aplica a Maria todas as suas metáforas, dedicando também um livro de comentários à Avé Maria, entre outros.
Nossa Senhora é suficientemente amada pelas passagens evangélicas como o fiat da Anunciação. No entanto, na iconografia é, segundo Emíle Mâle, a personagem do Novo Testamento que mais é inspirada nas lendas apócrifas, uma vez que os Evangelhos Canónicos são muito vagos em pormenores sobre a sua vida. Os relatos apócrifos deslumbraram os corações dos fiéis da Idade Média, mas também posteriormente, e vão ao encontro da sede de conhecimento que de Maria se tinha.
Se Maria se mostrava raramente nas velhas Igrejas românicas, deixando o protagonismo para o seu Filho e os apóstolos, a sua história foi esculpida nos portais de muitas das grandes Catedrais da Europa. Ela dá-lhes a invocação e tem lugar de honra nos seus portais, como na recentemente sofredora Notre Dame de Paris. Aí está representado um corolário do tema da Assunção de Nossa Senhora que celebramos a 15 de Agosto, a Coroação.
Ainda que o culto à Senhora da Assunção seja muito antigo e que o tema tenha sido motivo de debate ao longo dos séculos, o Dogma da Assunção da Virgem só foi afirmado pelo Papa Pio XII a 1 de Novembro de 1950. Trata-se da convicção de que o corpo e a alma da Virgem Maria foram levados ao céu depois de terminar a sua vida na terra.
No oriente ortodoxo esta festa é celebrada desde o século VI, primeiramente com a designação de Dormição de Nossa Senhora. Os escritos apócrifos em que se baseiam remontam ao século II. Tiveram grande influência nas homilias e escritos de oradores orientais como São João Damasceno.
Segundo ele: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda criatura como mãe e serva de Deus”.
Consta que o fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola, escreveu os Exercícios Espirituais sob a inspiração de Nossa Senhora. Por isso naquela obra se encontram várias referências a Ela como inspiradora e mediadora privilegiada. Contra a sua desvalorização pela Reforma Protestante, os jesuítas foram os grandes propagadores dos ideais da Reforma Católica que elevaram Maria em toda a arte encomendada. Uma das formas de incentivar a sua devoção foi a iconografia retabular.
Entre 1625 e 1628, o Padre Diogo Monteiro mandou construir ao arquiteto régio Teodósio de Frias e ao entalhador Jerónimo Correia um retábulo eucarístico na Capela-Mor da Igreja de São Roque. O retábulo é uma súmula de toda a devoção jesuítica. Dedicado a expor o santíssimo num alto trono, talvez dos primeiros em Portugal, o mesmo é enquadrado pelas figuras emblemáticas da Companhia de Jesus: os recém canonizados – em 1622 – Santo Inácio e São Francisco Xavier, e ainda São Francisco de Borja e Luís Gonzaga. São ladeados nas paredes laterias da Capela por São Estanislau Kostka e os três mártires do Japão, canonizados em 1627, pintados por Domingos Cunha, O Cabrinha.
Promoveu-se ainda uma inovação na tribuna. Fora as festas particulares em que se expunha o Santíssimo, o trono era – é – tapado por uma pintura em tela. Aliás, mais que uma, pois foram mandadas fazer sete, para que a cada momento litúrgico mais festivo presidisse ao retábulo uma imagem representativa do tempo do ano, sendo essas pinturas dedicadas à Circuncisão, Adoração dos Pastores, Calvário, Ressurreição, Pentecostes e ainda os mistérios da Anunciação e da Assunção, a mais antiga festa mariana.
Na pintura, com o tema da Assunção de Maria, de autor desconhecido e datada de cerca de 1633, Nossa Senhora é representada envolta num halo de luz e de querubins, e um eixo ascensional é marcado por quatro anjos que a elevam aos céus pelas pontas do véu. Maria derruba a morte simbolizada pelo seu túmulo, onde estão os apóstolos que assistem atónitos ao acontecimento. Desta forma postula-se o que acreditavam, tanto o povo como os teólogos do ocidente católico: que a Virgem foi assunta ao céu em corpo e alma.
Mónica Brito, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural
