Gratidão barroca: o Te Deum da Igreja de São Roque

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

Te Deum laudamos, Louvamos-Te Deus, assim começa um dos mais antigos hinos cristãos. Ninguém sabe ao certo quem o escreveu. Talvez tenha sido o sérvio Nicetas, ou Hilário de Poitiers, mas mais comum é acordar que Santo Ambrósio, aquando da conversão e baptismo de Santo Agostinho, tenha redigido tais versos. E, com mais segurança, podemos afirmar que os mesmos faziam parte da vida monástica do século VI e já nessa época eram considerados tradicionais.

O hino, entre citações sálmicas e profissões de fé, tem uma estrutura tripartida: começa por elevar um louvor a Deus Pai; depois um louvor a Deus Filho e a Deus Espirito Santo, com referência à Virgem Maria; e, por fim, um conjunto de preces.

Da tradição monástica, o Te Deum chega não só como um texto que se reza, mas sobretudo como cântico. Ainda hoje se conhecem antiquíssimas melodias do Te Deum em cantochão ou gregoriano. O seu emprego na oração da Igreja é frequente, sendo rezado a cada domingo (exceto na Quaresma), nos dias solenes ou em festas maiores, festas essas que tanto podiam ser de motivo religioso – o anúncio de um novo Papa, a canonização de um santo, a dedicação de uma igreja –, como de motivo estritamente social – o nascimento de um príncipe, a vitória numa batalha, o aniversário de um acontecimento notável, ou qualquer outro motivo de alegria e gratidão. E, também por isso, o génio de alguns dos maiores compositores dedicou-se ao Te Deum, como Charpentier, Lully, Purceel, Mozart, Bruckner, Dvorák.

O Te Deum de São Roque

Os Jesuítas surgiram na vida da Igreja mais como uma congregação milícia do que como uma congregação da tradição monástica e, por isso, São Roque não tinha grande tradição musical. Tais hábitos eram mais comuns nos conventos – onde fazia parte da vida conventual a assiduidade ao coro, isto é, freiras e frades iam ao coro-alto (ou coro-baixo) certo número de vezes ao dia para, juntos, rezarem, cantarem, os salmos e outros hinos –, ou nas catedrais, com as suas scholae cantorum, e em certas igrejas paroquiais que fomentassem as mesmas escolas de canto – que eram, e em alguns lugares ainda são, escolas de música com o calibre que hoje têm os conservatórios.

Dito isto, não se ignore o apreço da Companhia de Jesus pela música, que foi veículo muito importante de missão, principalmente na América Latina e na India, pela proximidade que estabelecia entre locais e estrangeiros – para não entrar em narrações históricas, antes recordamos o filme de Roland Joffé, A Missão, com o seu Oboé de Gabriel, de Ennio Morricone. E esse apreço estendia-se também ao uso litúrgico (ainda que, como já se disse, não fosse uma das características principais da vida da Companhia). Em São Roque, por exemplo, sabemos que nos inícios do século XVIII os Jesuítas promoviam um Te Deum dedicado a São Silvestre, celebrado a 31 de Dezembro, em acção de graças pelo ano que findava.

D. Tomás de Almeida, primeiro Patriarca de Lisboa, estimava muito a Igreja de São Roque. Ali se dirigia para ouvir as pregações do Jesuítas, apaixonado pela sua eloquência, e chegou mesmo a viver num palácio ao lado da igreja, tendo pedido para ser sepultado em São Roque, onde ainda hoje se encontra, ao centro do altar-mor.

Talvez por essa proximidade, talvez pela exuberância da igreja, talvez pelo hábito que já lá havia do Te Deum de fim de ano, D. Tomás, apoiado por D. João V, promoveu em São Roque um Te Deum que rivalizasse com Roma. Nascia assim, em 1718, na tradição musical portuguesa, o Grande Te Deum setecentista: uma composição do barroco colossal, a vários coros e solistas, numa monumentalidade formal e estética, composta pelos maiores (Frei Antão de Santo Elias, António Teixeira, Cristóvão da Fonseca, Carlos Seixas, Domenico Scarlatti, João Rodrigues, Jerónimo Francisco Lima), com influências operáticas, quer fosse na composição (o Te Deum passou a ter tipicamente como macro-forma quatro elementos, sendo o primeiro uma Abertura, em sinfonia, como na Ópera, a que depois se seguiam três hinos, o salutaris hostia, o Te Deum propriamente dito e o Tantum ergo), quer fosse no lirismo do canto, quer fosse nos faustosos cenários montados na igreja para acolher a população em geral, o Corpo Diplomático, altos dignatários da sociedade e a Família Real.

A tradição do Te Deum conservou-se por mais de 150 anos, até aos finais do século XIX, tendo sido depois recuperada em 2011, numa parceria entre a Santa Casa e a Fundação Gulbenkian.

Quando chegou ao fim a epidemia de cólera dos anos Cinquenta do século XIX, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa mandou celebrar um Te Deum, com direção musical a cargo de João Jordani. Ansiamos agora pela renovação de tão solene acto.

Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural