Educar é conectar
Educar é conectar a escola com o projecto de vida de cada aluno.
Pepe Menéndez
Na semana em que as escolas portuguesas abrem as suas portas e se inicia um novo ano letivo, decidimos dedicar a Newsletter semanal Cultura Santa Casa ao tema “os jesuítas e o ensino”. São Roque, antiga Casa Professa da Companhia de Jesus, é central no património cultural da Santa Casa e São Roque foi ao longo da sua ocupação jesuítica um lugar de chegada e partida dos mais relevantes vultos da cultura e da educação europeias. Estes padres, que simbolicamente a Igreja e o Museu de São Roque evocam, foram autores e veículo de saber científico que difundiram por todo o globo, nos muitos colégios da ordem, contribuindo para um conhecimento mais aprofundado da natureza, do cosmos e da própria humanidade. Foram também promotores e difusores de métodos de ensino. É sabido que a Ordem inaciana tem desde a sua fundação a formação como um dos pilares fundamentais da sua ação. Inicialmente centrada nos que aspiravam a ingressar na ordem, esta ação foi gradualmente alargada.
Diferentes contextos históricos e políticos têm gerado leituras mais ou menos favoráveis do papel dos jesuítas no ensino, tema que tem sido objecto de aprofundada análise e discussão académica. Não vou abordar esta questão nestas “notas soltas”, deixando-a para os especialistas. Vou dedicar este texto a uma experiência de ensino inovadora e inspiradora que está em desenvolvimento em escolas jesuíticas na Catalunha desde de 2009: Horizonte 2020.
O objetivo central do projeto Horizonte 2020 é promover a transição de um modelo educativo muito centrado no professor e na transmissão de conhecimento, numa lógica essencialmente unidireccional professor (o que sabe) / aluno (o que não sabe), para um novo paradigma educativo, onde o aluno aprende agindo. Este projecto assenta nos princípios e nos valores da espiritualidade jesuítica, recorrendo à psicologia da aprendizagem e das neurociências e a variados métodos e práticas de ensino que se revelaram bem sucedidos ao longo do tempo.
Uma das figuras centrais do H2020 é Pepe Menéndez, jornalista de formação, professor, conferencista, foi diretor do Colégio Joan XXIII em Barcelona, director adjunto de colégios jesuítas da Catalunha, co-fundador da Associação Europeia de Escolas de Educação Internacional (CETEI), integrou o grupo de especialistas que propôs as bases da atual legislação educacional da Catalunha, desde 2018 é conselheiro de governos e instituições de ensino em Espanha, Portugal e América Latina. Com um curriculum invejável, o que mais impressiona é a sua paixão pela Educação e vontade de mudança. Ele próprio conta que não era um aluno brilhante, aborrecia-se nas aulas. Fala de uma “aprendizagem bulímica”: uma grande ingestão de informação que se vomita numa prova escrita e que não deixa proveito calórico algum. Um dia, um professor do colégio jesuítico da Catalunha que frequentava fez a diferença. O Padre Ignacio Vila, no final da ditadura de Franco e quando Salvador Allende foi assassinado no Chile, entrou na aula e desafiou o grupo com uma pergunta: “É possível alcançar de uma maneira pacífica uma via alternativa ao capitalismo? Algum de vocês quer explorar o que se está a passar no Chile?”. Este professor conseguiu estabelecer uma conexão entre a escola e o mundo e mudar profundamente a percepção que Pepe Menéndez tinha da escola e da educação para sempre. Os manuais escolares, nas palavras de Pepe Menéndez “informação congelada”, foram por momentos colocados de lado e os jovens foram falar com chilenos que viviam na Catalunha, leram jornais, procuraram informação, debateram questões, chegaram a conclusões diferentes, aprenderam a respeitar as ideias dos outros.
O projeto educativo H2020 parte de três premissas base: 1. Conectar a escola com a vida dos alunos, ou seja, o aluno é protagonista da sua aprendizagem; 2. Começar os trabalhos escolares com perguntas que os alunos devem lançar e responder; 3. Desaprender para aprender. Nós, professores (também sou professora), temos de mudar o chip, nas palavras de Pepe Menéndez, para conseguirmos uma escola menos aborrecida.
O H220 é um modelo educativo disruptivo que vem combater o que considera mitos como a organização dos curricula por disciplinas ou a ideia de que se aprende melhor em grupos reduzidos de alunos. Nestas escolas as turmas têm sessenta alunos que trabalham em simultâneo com três professores de áreas distintas, divididos em pequenos grupos com interesses comuns. Os espaços tiveram de mudar, tornaram-se mais amplos. Também a relação entre os professores mudou, passou a haver uma maior interação e uma planificação conjunta, bem como a relação entre professores e alunos, caindo por terra a tradicional postura autoritária do professor que expõe e decide sozinho. Os professores são catalisadores, gestores de aprendizagens, como o Padre Ignacio Vila, muitas vezes recordado por Pepe Menéndez. A conceção de Tempo também mudou. O tempo é o do projeto, normalmente superior à duração de uma aula o que é possível porque os alunos não estão sentados, passivos, a ouvir. Eles movem-se, interagem. Nesse processo de questionamento e de construção de conhecimento as tecnologias digitais assumem um papel relevante. Em praticamente todas as escolas jesuíticas da Catalunha os alunos, desde o final da primária (5º e 6º anos) usam tablets ou computadores pessoais como instrumentos basilares de trabalho, ainda que também produzam muitos trabalhos em papel que são expostos nas paredes das salas e dos corredores. Perante tantas e tão profundas mudanças, o conceito de avaliação também teve de mudar. Os tradicionais testes não servem. O foco está no processo de aprendizagem e não no resultado. Por outro lado, o interesse e a motivação dos alunos por um projeto que parte de uma interrogação por eles colocada, resulta numa entrega voluntária e consciente à aprendizagem, muita mais profícua do que a preparação para um teste em que se debita matéria. Todos nós temos essa experiência do nosso tempo de alunos.
A grande diferença destas escolas em relação a outras, mais tradicionais, é que as pessoas estão no centro da escolarização: alunos, professores, funcionários, famílias. Os encontros, debates, conversas são fundamentais num processo que vive da partilha de ideias. Os curricula oficiais são reconstruídos em função de alunos concretos, os manuais escolares são colocados de lado e os recursos são produzidos pelos professores num trabalho de pesquisa, aferição e partilha. Trata-se de uma pedagogia da autonomia, da responsabilidade, da interação, do compromisso, mais humana, mais atenta, mais próxima de realizar o potencial de cada aluno. Sendo escolas jesuíticas, os professores são também guiados por um forte sentido teológico e humanista que orienta a ação e que assenta nos chamados 5 C: educar pessoas competentes, conscientes, compassivas, comprometidas e criativas.
Passados doze anos, muitas escolas públicas e privadas aderiram a este modelo, com adaptações. São cada vez mais os educadores a assumir a vontade de mudar a escola, de contribuir para a escola do século XXI, uma escola em que não existem bons e maus alunos, existem pessoa com perfis diferentes e necessidades diferentes. O ensino não pode ser algo estandardizado, dirigido a alunos teoricamente iguais entre si porque nasceram no mesmo ano, forma tradicional de agrupar as crianças e jovens, também ela questionável. Pepe Menéndez e as equipas que diariamente trabalham nestas escolas são uma inspiração e alento para mim que sou mãe, professora e responsável por um serviço educativo na área da cultura.
Helena Alexandra Mantas, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural
