De malogrado, a benfeitor: o jogo social
Conta-se que, certo dia, um homem perguntou a São João Bosco quais os números a apostar para ganhar a lotaria. Bosco tinha fama de ser sábio e de à sua volta acontecerem milagres e, talvez por isso, na sua inocência, o homem achasse que a esotérica adivinhação fosse qualidade do santo. Mas diante do caricato da situação, São João Bosco não hesitou: “aposte no 7, 10 e no 14”. Já o homem se apressava para ir jogar a aposta quando São João Bosco o detém pelo braço: “Deixe-me explicar. 10 significa que deve cumprir os 10 mandamentos; 7 que precisa de receber com frequência os sacramentos; 14 que deve cumprir as obras de misericórdia.” Quando dali saiu, o homem foi a um asilo cuidar de quem pior passava.
A história da Misericórdia de Lisboa com as lotarias é, de certo modo, como a deste homem: o interesse pelo jogo só existe para que se cumpra algo maior. A Misericórdia não nasceu como um lugar de tavolagem ou uma casa de apostas. Nasceu para responder a necessidades sociais concretas da sociedade e os jogos sociais servem para financiar essas respostas.
Ainda que seja uma tradição tão antiga quanto são egípcios, fenícios, gregos e romanos, o jogo não era bem visto até aos fins do século XVIII. Mas nesses fins do século, por toda a europa estavam já estabelecidas lotarias e outros jogos semelhantes. No Portugal da Neutralidade Armada e numa Lisboa que se restabelecia do terramoto, D. Maria I (1734-1816; rainha de 1777 a 1815) e os seus próximos sentiam necessidade de amparar e criar instituições de apoio aos desvalidos – por exemplo, a Casa Pia –, ou de desenvolvimento cultural – Real Biblioteca Pública, Academia da Marinha, Academia das Ciências. Para financiar tais iniciativas, não bastavam os proveitos do orçamento do reino e, encontrando-se a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com os seus Hospitais Reais dos Enfermos e dos Expostos, em gravosas dificuldades económicas, decretou a Rainha, a 18 de Novembro de 1783, «a faculdade de fazer huma Loteria anual, para ocorrer com os lucros della às urgentes necessidades dos ditos dous Hospitaes».
Na Imprensa Régia mandaram-se fazer 22.500 bilhetes (dos quais 7.833 com direito a prémio), que depois de assinados à mão pelo escrivão e pelo Tesoureiro-Mor da Santa Casa, foram postos à venda pelo valor, unitário, de 6$400 réis e quem ganhasse o primeiro prémio levava para casa 12.000$00 reis.
O sorteio teve lugar a 1 de setembro de 1784, das nove da manhã à uma da tarde, na sala de extracções da lotaria, que – pensamos – é hoje a Sala do Brasão do Museu de São Roque. O processo de extracção da lotaria era complexo. Na sala, duas grandes rodas de madeira, com os papelinhos dos bilhetes vendidos, devidamente certificados. Ao lado das rodas, com as mangas arregaçadas até ao ombro, dois meninos da Santa Casa, à indicação do Provedor, iam tirando os papelinhos da fortuna ou do azar. Entregavam os papelinhos aos pregoeiros, que desdobravam os papéis e, à janela, gritavam os números e o seu respectivo prémio. No largo, grande multidão aguardava a sua sorte. O processo era de tal forma moroso que o primeiro sorteio demorou 34 dias (manhãs), ficando as rodas à guarda de um sargento, um cabo e uma companhia de 18 soldados.
O sucesso da lotaria levou a que no ano seguinte se repetisse a iniciativa, para daí uns tempos passarem a existir duas lotarias por ano. E se, no início, os proveitos do jogo serviam à Misericórdia e à Real Academia das Ciências – que teve como principal entusiasta da sua fundação o 2.º Duque de Lafões, também ele responsável por convencer a Rainha da bondade das lotarias –, mais tarde estenderam-se os ganhos à Casa Pia e à Misericórdia do Porto (que por certo período de tempo teve licença para explorar uma lotaria própria), numa história de desenvolvimento que chega aos dias de hoje, num sem fim de apoios e bem-fazer que todos os dias a Misericórdia de Lisboa cumpre por todo o país.
Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural