“Cultura da Hospitalidade, A Hospitalidade Como Cultura”, retrospectiva e expectativa a meio do caminho
Por estes dias, são muitos os desafios à hospitalidade e este é um tema que nos é muito querido: a nossa história são cinco séculos de hospitalidade. Em 2018 lançámos o Pólo Cultural de São Roque e uma nova modalidade de programação cultural, guiada pelo tema da hospitalidade. A meio do caminho, apresentamos um resumo do que já fizemos e olhamos confiantes para o que aí vem e gostávamos de fazer.
A cultura como um bem para o homem
A cultura é um esforço de reflexão sobre o mistério do mundo e o mistério da humanidade. A nossa experiência de Santa Casa – em que trabalhamos e colaboramos com tantas pessoas – é de que a cultura é um bem essencial, pois ajuda cada um de nós a conhecer-se melhor, a interagir com o mundo que nos rodeia e com os outros. Daqui, sempre nasce uma estima por cada um, pelos outros e pelo mundo. Encara-se a vida de forma mais positiva. E, talvez por isso, a cultura é uma das formas mais perfeitas de integração e inclusão social. Não é um trabalho de resultados imediatos, mas com tempo e no tempo.
Muitas são as vezes que olhamos à nossa volta e, desgraçadamente,vemos muitas razões para nos preocuparmos. Com a nossa proposta cultural queremos criar momentos em que se encontram, contemplam e vivem momentos de beleza. A cultura é uma oportunidade de levantar a cabeça e enfrentar a vida com mais segurança e alegria.
Ao longo dos nossos 522 anos foi-nos confiado um vastíssimo património edificado e artístico. Verdadeiros tesouros que nos foram entregues e que guardamos com todo o empenho. Somos a Santa Casa e faz parte da nossa maneira de ser partilhar o que temos; por isso criámos o Museu de São Roque (primeiro em 1905, segundo uma lógica que em 2008 renovámos, com mais espaço e novo discurso museológico) e promovemos visitas ao nosso património mais significativo – Conventos de São Pedro de Alcântara, do Grilo, da Encarnação e de Santos-o-Novo; Hospitais de Sant’Ana e de Alcoitão; Residência Faria Mantero; jazigos de benfeitores; Quinta Alegre; sala de extracções da lotaria.
Pólo Cultural de São Roque
No Largo Trindade Coelho – também conhecido como Largo de São Roque, ou Largo da Misericórdia – temos a Igreja e o Museu de São Roque, uma galeria de exposições temporária, o Arquivo Histórico e a Biblioteca da Santa Casa. Por uma parceria da Santa Casa com os Jesuítas, no início deste ano chegou a São Roque a Brotéria, um centro cultural, com uma extraordinária biblioteca. E, em breve, vamos abrir também no largo o museu Casa Ásia – Colecção Francisco Capelo.
O largo une cada um destes lugares, mas o próprio património e a narrativa de cada um deles também: a Santa Casa e a sua história, a Companhia de Jesus e o Oriente.Em 2018 olhámos para todo este património e suas relações e, em vez de pensarmos a programação individual de cada lugar, decidimos avançar para uma programação integrada entre todos. Assim, a 13 de Outubro de 2018 – numa grande festa, concebida por António Pinto Ribeiro, com exposições de artistas plásticos, teatro, concertos, um colóquio, jogos tradicionais orientais e outros – apresentámosao público o Pólo Cultural de São Roque.
A Santa Casa quer continuar a afirmar a centralidade da sua proposta cultural na vida de Lisboa e a criação de um pólo cultural robustece essa mesma posição. Ainda para mais, São Roque é lugar de grande afluência e fica no centro histórico da cidade, entre o Príncipe Real, o Bairro Alto e o Chiado, centros culturais primeiros da Lisboa de outras eras e dos nossos tempos, onde encontramos galerias e antiquários, museus, teatros, casas de fado e ainda algumas resistentes sedes de jornais e colectividades, livrarias e alfarrabistas. O vínculo e a relação à sociedade e às pessoas concretas que a constroem é para nós fundamental.
Nova modalidade de Programação
Com lançamento do Pólo Cultural de São Roque também arriscámos um novo modelo de programação da Cultura Santa Casa: integrada, plurianual e temática. Não queremos ser somente transmissores do conhecimento que detemos, mas antes queremos participar num amplo diálogo com os protagonistas culturais, a fim de abordar os problemas urgentes e complexos da cultura, na sua pluralidade e riqueza, para melhor servir, renovar e actualizar as compreensões sobre o ser humano e a sociedade, nas concepções de homem e de mulher, de educação, de escola e universidade, de liberdade e verdade, de trabalho e lazer, de economia e sociedade, das ciências e das artes, da história e do homem como seu protagonista.
Hospitalidade
“Por uma CULTURA DA HOSPITALIDADE, A HOSPITALIDADE COMO CULTURA” foi o tema que escolhemos trabalhar. Os desafios à hospitalidade estão muito presentes na Europa dos nossos dias, com a questão dos refugiados e migrantes, por exemplo, ou na vida de Lisboa, com as questões do urbanismo, habitação e turismo. E também o escolhemos porque é um tema que nos é muito querido. De certo modo, a nossa história são cinco séculos de hospitalidade.
A ideia de hospitalidade orbita, genericamente, entre duas vertentes: o acolhimento ao viajante ou peregrino e o cuidado pelo doente ou indigente. Portanto, o que está em causa é, acima de tudo, a afirmação do outro como um bem.
Então, como é que se pensa uma programação cultural que parta desta questão? Sentámo-nos e fizemos um levantamento de todas as perguntas, pistas, assuntos,que orbitam à volta desta temática; depois organizamo-las; e a seguir pensámos como podíamos aprofundar estas perguntas do ponto de vista cultural e partindo do nosso património. Um caminho simples e muito interessante de percorrer.
Por exemplo, a palavra hospitalidade tem vários significados – por vezes até contraditórios – e os gestos e ritos de hospitalidade evoluíram ao longo da história. Os gregos encaravam estes rituais de uma forma e a corte barroca de outra totalmente diferente. Para aprofundar esta vertente, promovemos um colóquio sobre a Hospitalidade ao longo do tempo.
Entre o nosso património temos alguns conventos que foram durante séculos – e alguns ainda o são – lugares de hospitalidade; e Lisboa está pontuada por muitos outros que pertencem a outras instituições. Por isso, em parceria com o Patriarcado e a Câmara Municipal, avançámos com um openhouse de conventos lisboetas, que veio para ficar e permite visitar estes espaços, muitos deles ignorados do público, e ficar a conhecer a sua história e os protagonistas que a habitaram.
Em 2019 cumpriram-se 400 anos da obra que André Reinoso dedicou à vida de São Francisco Xavier. Um ciclo pictórico notável, patente na sacristia da Igreja de São Roque, que conta a viagem que Xavier empreendeu de Lisboa ao Oriente distante. Entre conferências, visitas guiadas, filmes documentários, workshops de danças ou de gastronomia oriental, fomos descobrindo as práticas de hospitalidade dos povos que acolheram o Apóstolo das Índias.
Lisboa é historicamente cosmopolita e no Verão passado, através de um ciclo de cinema ao ar livre, revelámos alguns destes traços icónicos de uma cidade que acolhe. E acompanhámos este ciclo com itinerários socioculturais pela cidade.
Também na literatura encontramos muitas histórias de hospitalidade e,na Biblioteca da Santa Casa,temos vindo a descobrir algumas através de um Clube de Leitura, conduzido por Carlos Vaz Marques.
Outro ponto interessante é pensar a hospitalidade como morada, como defendia Levinas. Queremos aprofundar a hospitalidade como lugar, morada e vizinhança e estamos a preparar, em parceria com a Faculdade de Arquitectura, uma série de conferências, workshops, conversas e uma exposição fotográfica.
Hospitalidade é afirmar o outro e a arte é uma forma privilegiada de dizer a realidade indizível: os anseios do coração, as elevações do espírito, o mistério das coisas. Assim, e também para relançar a tradição de São Roque como encomendador de arte, temos vindo a preparar um programa de criação artística, O outro como epifania do belo.
Mas estes são só alguns exemplos. Outras coisas já fizemos e muitas outras estão a ser preparadas, sobre migrações por exemplo; ou sobre os desafios do turismo; também uma mostra gastronómica, pois a hospitalidade tem muito que ver com o estar à mesa e as práticas de hospitalidade nas culturas de diversos países são uma fonte inesgotável de conhecimento.
Toda esta programação deveria ter tido lugar entre 2018 e 2020. A pandemia veio baralhar os planos e decidimos estender o tema da hospitalidade até 2021. Ainda é cedo para tirar grandes conclusões sobre o momento que vivemos, porém, uma coisa parece-nos segura afirmar:com a pandemia, ficaram mais patentes as desigualdades na sociedade; ao mesmo tempo, também se revelou que o coração humano é naturalmente generoso e acolhedor; parece-nos que afirmar a hospitalidade é agora ainda mais pertinente.
Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural
