As coleções de têxteis no Museu de São Roque. Um mundo a (re)descobrir.

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

É já razoavelmente conhecido do público o acervo artístico do Museu de São Roque, maioritariamente composto por objetos sacros de origem europeia e extra-europeia, sobretudo datáveis dos séculos XVI a XVIII. Muito provavelmente, o leitor lembrar-se-á com facilidade de uma obra de referência de ourivesaria, de escultura, ou pintura e até de impressionantes relicários associada a esta coleção. E dos têxteis? Ocorre-lhe alguma imagem ou referência?

Talvez os têxteis tendam a ser menos valorizados ou divulgados, até por motivos de conservação e dificuldade de exibição, que obrigam à sua mais frequente rotação. Todavia, estes objetos não só marcam presença física no Museu de São Roque como são recorrentemente representados ou invocados noutros materiais e técnicas pelas demais manifestações artísticas revelando-se, afinal, quase omnipresentes ao logo de todo o percurso expositivo.

No Museu de São Roque podem observar-se obras têxteis em 3 núcleos: no jesuítico, no da arte asiática e no da capela de São João Batista. Embora temporariamente retirados, no primeiro (no piso térreo) reconhecem-se frontais de altar de fabrico português do século XVII, bordados com imponentes albarradas, cuja qualidade de execução nos alerta, de imediato, para o bom nível que a produção nacional podia alcançar na época. Por outro lado, o programa decorativo que os caracteriza remete o visitante para a estreita relação criativa entre os têxteis e outras expressões artísticas, como as obras de pedraria de embutidos de mármores coloridos que decoram algumas das capelas laterais da igreja de São Roque, onde estes eram também utilizados. De facto, os têxteis partilham as soluções plásticas com as outras artes, ao nível das cores, modelos e estruturas compositivas, influenciando, mesmo, algumas delas. Lembremos apenas as borlas que rematam a sanefa do imponente baldaquino romano destinado à capela de São João Batista, claramente marcado pelas alusões têxteis.

É no 2º piso, no núcleo de arte asiática, que se reúne um outro conjunto de têxteis, neste caso, de proveniência chinesa. Embora reduzido, trata-se de um importante conjunto pelos exemplos que reúne, representativos que são da reputada manufatura têxtil chinesa bordada, tecida e pintada para exportação. Foi no âmbito da fixação dos portugueses em Macau, na década de 1550, e da sua participação nos circuitos comerciais locais que se desenvolveu a produção de suportes têxteis chineses vocacionados para o mercado português, de acordo com o seu gosto e necessidades, tanto para aqueles fixados no reino, como dispersos pelo mundo. Ditados pela hibridez formal, técnica, plástica e iconográfica, prestavam-se os mesmos a cumprir funções no domínio profano e sacro, nomeadamente, no campo do cerimonial litúrgico católico, como bem testemunham os exemplares de São Roque.

Aqui podem observar-se, em alternância, panos de armar bordados sobre veludo, de meados do século XVII, componentes de um raro paramento tecido, datáveis da segunda metade do século XVIIItal como um véu de esquife pintado e utilizado no revestimento do corpo de São Francisco Xavier com na igreja do Bom Jesus de Goa, onde ainda se encontra o seu túmulo.

Nestas peças, independentemente da tipologia e da tecnologia de fabrico utilizada sobressai a exuberante paleta cromática, o recurso a materiais requintados com o fio metálico dourado e a seda, e a temática vegetalista e floral local, articulada, no caso dos panos, com diversos animais, representados pelas aves – como os pavões, faisões e papagaios – e pelos mamíferos – como as lebres e veados -, quase sempre aos pares.

Por fim, segue-se o núcleo da capela de São João Batista, no qual se expõe o seu tesouro, composto por notáveis alfaias produzidas em Roma, na sequência de uma encomenda do rei D. João V (1689-1750), destinadas ao funcionamento da referida capela, situada no lado do Evangelho da igreja de São Roque. Além das fantásticas obras de ourivesaria, pode observar-se um imponente conjunto de paramentos litúrgicos bordados, expostos de acordo com as cores do calendário litúrgico (branco, verde, vermelho, roxo e preto), e de rendas flamengas do mesmo período cronológico. Esta é uma coleção rara a vários níveis, tendo em conta o impressionante número de peças que ainda a compõe, a sua riqueza material e a coerência decorativa, a qualidade de execução, o seu estado de conservação e, não menos importante num contexto de produção tendencialmente anónimo, a possibilidade de atribuir autorias à sua manufatura, graças à rica documentação arquivística que ainda hoje sobrevive.

Além dos objetos propriamente ditos, as referências ao universo têxtil na restante exposição são uma constante, tanto por via da reprodução de modelos de vestuário e adereços na pintura e na escultura, como de técnicas que visam replicar as respectivas características tácteis e visuais. Tais pormenores ajudam-nos a datar soluções, a compreender usos, e a contextualizar tendências. Quem diria que é na sacristia da igreja que se encontram as mais antigas representações dos belos têxteis indianos pintados que viriam revolucionar a produção têxtil e a moda europeia a partir do século XVII?

De facto, a presença do universo têxtil no Museu de São Roque é bem mais intensa e abrangente do que se poderia considerar num primeiro momento. Mas esta é, afinal, uma realidade que não surpreende tendo em conta a sua relevância no quotidiano ao longo do tempo. Por tudo isto, venha(re)descobrir as coleções têxteis do Museu de São Roque.

 

Maria João Ferreira, Museu de São Roque