A Santa Casa e o Azulejo: Mais de 500 anos de História
Apesar de não haver certezas, há quem afirme que a origem da expressão “ouro sobre azul” se encontra na conjugação, característica do barroco português, da talha dourada com a azulejaria a azul e branco. Pesem embora os vários momentos de destruição ao longo da História da Arte, como o terramoto de 1755 ou a extinção das ordens religiosas em 1834, são ainda muitos os locais onde esta combinação pode ser contemplada, como o convento filipino de Santos-o-Novo, integrante dos Recolhimentos da Capital, que em 2011 foram confiados pela Segurança Social à guarda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Visitar o património da Santa Casa, de olhos postos nos pequenos quadrados de cerâmica vidrada que revestem as paredes é, também, percorrer a história do azulejo em Portugal. O azulejo é pensado para a arquitetura e, devido às suas características intrínsecas, não vive sem ela. O notável conjunto de património arquitetónico que a Santa Casa tem sob sua custódia permite traçar a sua história, com passagens incluídas por obras de figuras fundamentais da azulejaria portuguesa.
A Casa Professa de São Roque tem origem numa pequena ermida manuelina que ali existiu, e foi precisamente neste período que se deu a primeira entrada em força da azulejaria no nosso País, após a visita a Granada do Rei D. Manuel I e a vasta encomenda que fez às oficinas sevilhanas. Curiosamente, o reinado em que aconteceu este momento primordialmente marcante foi o mesmo em que se fundou a então chamada Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia. Da ermida inicial muito pouco resta, mas escavações feitas na Igreja de São Roque encontraram restos de azulejos hispano-mouriscos, indiciando que as suas paredes talvez apresentassem este revestimento. É também em São Roque que esta história continua com alguns dos seus capítulos mais memoráveis, nomeadamente, no que diz respeito ao período maneirista, com os azulejos ponta de diamante, e, sobretudo, com a incontornável obra da Capela de São Roque, feita por Francisco de Matos em 1584, que a assinou e datou. Este conjunto é considerado uma obra-prima da cerâmica mundial da época e tem merecido a atenção de praticamente todos os especialistas que se debruçaram sobre o azulejo em Portugal. Foi recentemente alvo de um estudo detalhado, desenvolvido entre o Museu Nacional do Azulejo, o Museu de São Roque, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e o Laboratório HERCULES, que envolveu investigação interdisciplinar com recurso a testes laboratoriais, permitindo esclarecer melhor o processo de produção e enquadramento na produção azulejar lisboeta, como as relações com o Painel de Nossa Senhora da Vida, à guarda do Museu do Azulejo. Ainda sobre São Roque, vale a pena acrescentar, também, que neste preciso momento a Arterestauro Lda. se encontra, por incumbência da Santa Casa, a restaurar os azulejos seiscentistas do corredor da sacristia.
Do período barroco a Santa Casa detém uma notável e mais numerosa coleção, preservada tanto em contexto palaciano como conventual. No que aos palácios diz respeito, há destaque para o Palácio do Marquês de Alegrete – que igualmente alberga azulejaria neoclássica – e, muito em particular, para o Palácio do Marquês das Minas. Este edifício de origem seiscentista situado no Bairro Alto é, na realidade, constituído por dois palácios unidos, o Minas e o Leitão de Andrade, ambos propriedade da Santa Casa, onde se preserva um importante conjunto azulejar. Tem obras do Mestre PMP – pintor de azulejos da primeira metade do século XVIII, cujo nome verdadeiro ainda hoje se debate – de Bartolomeu Antunes e de Nicolau de Freitas, representando várias temáticas ligadas à aristocracia, como a caça, a guerra ou as cenas galantes.
Nos conventos, salienta-se o revestimento da escadaria do Convento do Grilo, o já referido Convento de Santos-o-Novo ou o conjunto de São Pedro de Alcântara, cuja igreja está revestida com um ciclo azulejar dedicado à vida do santo, de autoria desconhecida. Na sacristia entra-se na segunda metade do século XVIII, com alguns painéis de azulejos pombalinos presumivelmente feitos no contexto das obras promovidas depois do terramoto de 1755, que danificou este convento, e outras zonas conventuais apresentam azulejaria dos séculos XIX e XX, colocada já depois da entrega do edifício à Santa Casa.
Com efeito, esta viagem pela história da azulejaria portuguesa não termina no período moderno. Prossegue até à contemporaneidade, em particular num monumento que constitui uma das grandes obras de benemerência feitas à Santa Casa: o antigo Sanatório de Sant’Ana, atual Hospital. O conjunto de azulejos Arte Nova que decora o Jardim de Inverno, representando várias plantas, tanto curativas como prejudiciais à saúde, foi feito no início do século XX por Jorge Pinto e Miguel Queriol.
É todo este património que a Cultura Santa Casa evoca e valoriza na sua programação. Uma das iniciativas é o Itinerário do Azulejo, pertencente ao ciclo Itinerários em Lisboa, explorando um percurso cronológico pela história do azulejo em Portugal, apesar de, por razões de viabilidade, se centrar essencialmente em São Roque e São Pedro de Alcântara. Soma-se a visita temática Museálogos – A azulejaria portuguesa do século XVI ao século XX, organizada em parceria com o Museu Nacional do Azulejo. A aceitação que estas atividades têm tido por parte do público revela-nos o interesse geral por este tema.
O património azulejar encontrou particular expressão em Portugal, e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa responsabiliza-se pela salvaguarda, através de diferentes estratégias, daquele que os séculos confiaram ao seu cuidado: patrocina a sua Conservação e Restauro; garante o seu estudo, em colaboração com investigadores reputados; possibilita a sua fruição por parte do público, e assegura a sua plena valorização cultural, dando-o a conhecer e organizando programação cultural temática.
André Martins da Silva, Serviço de Público e Desenvolvimento Cultural
