Uma viagem ao centro da Terra…

Foto de azulejos

Lembro-me de, em adolescente, ler a aventura escrita por Júlio Verne e imaginar-me a percorrer aqueles novos mundos fantásticos e inexplicáveis, imaginava qual seria a reação dos amigos do Axel quando este lhes contava a sua aventura no interior da Terra, certamente ninguém acreditava nele pois como seria possível ver um mundo que os outros não vêem?

Tudo seria mais fácil para Axel se, em vez de ter entrado num vulcão na Islândia, tivesse vindo a Lisboa, onde a cidade conta a sua história através da memória geonatural dos seus bairros e lugares. Seria interessante imaginar que Axel entrou por um antigo vulcão extinto em Monsanto, navegou por um Rio Seco e atracou em Areeiros, subiu a uma Charneca, brincou em Telheiras e em Fornos de Tijolo, entre tantas outras aventuras, sem sair da capital.

O ciclo de itinerários Pedra Ante Pedra, dividido em cinco percursos pedestres diferentes que se repartem pela cidade, em todo o seu compasso, desde a zona oriental às zonas norte, central e ocidental, é realizado ao longo do ano e desenvolvido entre o Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Museu Geológico / Laboratório Nacional de Energia e Geologia. Visa a descoberta de uma cidade sobre a qual caminhamos diariamente, promovendo um novo olhar sobre diferentes zonas de Lisboa, com o respetivo enquadramento geológico, dos seus recursos geológicos, de achados paleontológicos relevantes e da memória de testemunhos das figuras ligadas à geologia. Nos edifícios patrimoniais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa são feitas visitas guiadas à história dos edifícios aludindo à diversidade dos geomateriais utilizados e a sua proveniência.

Olhar os monumentos e o edificado e relacioná-los com a toponímia da cidade ajuda a perceber as diferentes camadas geológicas na qual Lisboa assenta, bem como a história da sua sociabilização, desde as indústrias, ofícios e zonas lúdicas que a foram moldando.

A importância da matéria na construção fez com que as pedreiras de Lisboa tenham sido exploradas extensivamente ao longo da sua história, a sua exploração levou à criação de estruturas laborais que se alocaram às necessidades sociais, desde a construção de castelos, mosteiros e igrejas com a sua decoração pétrea, aos revestimentos azulejares e aos serviços de loiça e faianças que fizeram nascer diversas oficinas e indústrias na cidade.

Foram já vários os itinerários que se realizaram, todos eles deixando na nossa memória o olhar de descoberta dos visitantes sobre os pequenos pormenores que lhes haviam passado despercebidos ao longo dos seus passeios diários na cidade.

No Itinerário da zona Oriental, entre o Beato e Marvila, encontramos em partes do pavimento do Convento do Grilo e da Igreja de São Bartolomeu dos Grilos pedraria da ilha de Ölland na Suécia, os quais memoram a importância das pedras nas trocas comerciais europeias na época moderna; também nesse itinerário, a visita ao geo-monumento da Rua Capitão Leitão evidencia os diferentes períodos geológicos e lembra as mudanças que ocorreram com a industrialização da cidade de Lisboa no século XIX.

De Calafates, a Salgadeiras, ao Diário de Notícias, à Academia de Ciências e à Misericórdia, no Bairro Alto de São Roque, os nomes das ruas contam a sua história. Também a geologia se encontra nomeada ao longo do Itinerário do Bairro Alto, desde a Barroca à Atalaia. Neste itinerário, atravessamos o Bairro Alto até ao Convento do Carmo, realçando a memória da qualidade construtiva e a proveniência de alguns materiais dos espaços a visitar, com especial enfoque nos diferentes tipos de rochas ornamentais da capela dos Lencastres, no Convento de São Pedro de Alcântara, e no esplendor pétreo da capela de São João Batista na Igreja de São Roque.

O Cemitério dos Prazeres, sobre o vale de Alcântara, é palco principal do Itinerário de Campo de Ourique e apresenta algumas das mais importantes obras de arte em pedra construídas ao longo da segunda metade do século XIX e início de seculo XX em Lisboa, a perenidade da vida é ali contraposta pela matéria “eterna” da pedra, que servirá como cenário de lembrança das obras feitas em vida.

Anda comigo ver os aviões ao alto da Charneca do Lumiar, dizem amiúde os planespotters, os quais assentam as suas máquinas para fotografar o Aeroporto Humberto Delgado. Mas será que sabem das histórias por debaixo das pistas, da extração de areeiros para a renovação da cidade de Lisboa no final do século XIX aos aterros que ali se produziram? No Itinerário da Charneca do Lumiar visitamos o Palácio da Quinta Alegre onde se observa o aproveitamento de materiais locais na construção do edifício.

Em novembro de 2018, os dias apresentavam-se bastante chuvosos na semana que antecedeu o Itinerário Pedra ante Pedra na zona Ocidental. O telefone do nosso serviço, no Convento de São Pedro de Alcântara, ia tocando com pedidos de cancelamento. Se no início desse mês a visita se encontrava esgotada, a chuva intensa ameaçava o cancelamento da actividade. Contudo, na véspera do itinerário o tempo tornou-se solarengo e o telefone parou de tocar, havia número suficiente de participantes para realizar a visita. Antevendo a possibilidade de chuva, remarcou-se o ponto de encontro da visita, a mesma iria começar junto ao Palácio Nacional da Ajuda. Aliava-se a importância do monumento a um motivo bem mais prático, a entrada do palácio é coberta e poderia servir do mais belo chapéu-de-chuva da cidade.

Aproximava-se a hora da visita e o dia solarengo de véspera havia cambiado para o dia mais chuvoso da semana, imaginámos que não iria aparecer ninguém. Chegados ao Palácio, cerca de quinze pessoas encontravam-se abrigadas, com o chapéu-de-chuva na mão, olhei para elas e imaginei-as como o Axel e o seu tio Otto antes de descerem o vulcão, o que iria acontecer a seguir?

Como poderíamos fazer a visita quando a chuva aumentava cada vez mais? A seguir ao Palácio da Ajuda teríamos de ir para o lugar do Rio Seco, que nome paradoxal para o dia da visita. Fernando Pessoa dizia que quando o Homem sonha a obra nasce, talvez se tenha inspirado num dia como esse dia chuvoso de novembro, pois rapidamenteforam os visitantes que encontraram a solução, os que haviam levado as suas viaturas para o itinerário, ofereceram os lugares vagos para servir de abrigo temporário entre visitas, e assim conseguimos visitar o geo-monumento do Rio Seco e ir ao Bairro do Restelo, à Residência Faria Mantero onde observámos os materiais geológicos que a compõem, com especial ênfase no pórtico de pedraria gótica que ali se encontra.

Lisboa menina e moça, canta com razão a cantiga, se as suas cicatrizes nos indicam as diferentes marcas geológicas que o tempo lhe impôs, a sua matéria visível nas fontes, pavimentos e demais edificado alfacinha lembram que também nós fazemos parte da sua história.

Esperamos por si, numa futura viagem ao centro da Terra.

Ricardo Máximo, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural