Uma coleção improvável
Uma coleção improvável…num museu de arte sacra. O Museu de São Roque conserva e exibe maioritariamente obras de arte sacra do século XVI ao século XIX. Surpreende uma coleção constituída por cerca de 1400 trabalhos de artes gráficas e desenho, maioritariamente da autoria de Rodrigues Alves, mas que conta também com originais de Stuart Carvalhais, Amarelhe, Botelho, Jorge Barradas, Alberto de Sousa, Eduardo Teixeira Coelho, Vítor da Silva, José Ruy, José Garcês, Ricardo Neto, entre outros. Trata-se de uma coleção heterogénea, cronologicamente situada entre o final da década de 1920 e os anos de 1960, que foi doada à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pela irmã de Rodrigues Alves, Maria Teresa.
Exemplar testemunho da evolução das artes gráficas em Portugal no século XX, a coleção Rodrigues Alves inclui trabalhos originais de ilustração de textos jornalísticos e contos, maquetas de capas de partituras, livros e outras publicações, cartazes, trabalhos de lettering, composição gráfica e paginação, banda desenhada e trabalhos para cinema de animação. Integra também um núcleo de Desenho e Pintura da autoria de Rodrigues Alves, com destaque para o desenho de nu e desenho humorístico e caricatura. Por questões de conservação esta coleção não está exposta em permanência, tendo sido realizada uma exposição temporária para a divulgar em 2003, ocasião em que a SCML publicou um catálogo com o inventário da mesma.
Perante o desafio e o prazer de escrever este breve texto, hesitei entre abordar a coleção ou o coleccionador-artista. Optei por prestar uma homenagem a este último, não tão divulgado e conhecido como merece, o que de resto acontece muito com os artistas que se dedicaram às artes gráficas, frequentemente nos bastidores, longe das luzes da ribalta das exposições, das galerias e do mercado da arte, embora haja cada vez mais investigadores a dedicarem-se a esta área em Portugal. A este propósito lembro-me de Maria Keil que ainda tive o privilégio de conhecer antes de falecer e que se auto denominava uma “operária das artes”. Também Rodrigues Alves foi um “operário das artes”.
João Rodrigues Alves (Lisboa, 1910-1967), o responsável por esta coleção, foi uma figura ativa na modernização das artes gráficas em Portugal, como artista e como mestre, tendo encarado a atividade gráfica com plena convicção e não como uma alternativa, como aconteceu com muitos outros artistas do seu entorno que encontravam nos trabalhos gráficos um retorno económico que a Pintura, Desenho e outras disciplinas artísticas não proporcionavam.
O seu percurso nas artes gráficas começou cedo. Aluno da Escola de Arte Aplicada de Lisboa, antecessora da Escola António Arroio, em 1925, com apenas 15 anos, prestou colaboração no jornal ABCzinho da pequenada. 1932 foi um ano decisivo na sua carreira, tendo iniciado actividade como desenhador no jornal O Século. Em 1940 assumiu a função de maquetista-paginador deste jornal, dirigindo uma importante equipa de desenhadores residentes e colaboradores externos. Profundo conhecedor do melhor que se fazia a nível internacional nas artes gráficas, procurou modernizar as publicações de O Século, não apenas do ponto de vista estético, mas também apostando na aquisição de nova maquinaria para as oficinas tipográficas, nomeadamente uma máquina de rotogravura Mailänder que mandou vir da Alemanha Oriental, na altura considerado o processo mais perfeito de reprodução e impressão de imagens.
A Escola António Arroio foi outro palco em que Rodrigues Alves teve um papel ativo na procura de modernização das artes gráficas em Portugal. Mestre desde 1940 de Desenho litográfico e de Desenho de letra, introduziu nas suas aulas as novas pedagogias de ensino das artes gráficas seguidas na Alemanha e outros países europeus, iniciando os seus discípulos na arte de desenhar a letra, ensinando-lhes as regras básicas da sua arquitectura e construção. Levava com frequência os seus alunos a oficinas gráficas e às salas de desenho de O Século Ilustrado, onde podiam tomar contacto com a realidade do mundo profissional no qual queriam ingressar. A Banda Desenhada e o Cinema de animação foram outras áreas que trabalhou nas suas aulas, convidando profissionais experientes para irem à escola fazerem demonstrações de desenho e técnica.
O mestre teve uma influência decisiva nos seus alunos, como o demonstram os testemunhos de alguns deles publicados no catálogo da exposição temporária que a SCML lhe dedicou e que quero partilhar por serem muito mais expressivos do valor pessoal e profissional de Rodrigues Alves do que qualquer texto que eu possa escrever:
“De Rodrigues Alves só tenho boas lembranças e assim o pensarão os seus alunos da António Arroio, pois ele tinha grandes qualidades de contacto humano e categoria profissional, dado que conhecia muito bem aquilo que ensinava.”
Eduardo Teixeira Coelho
“O Mestre era um homem novo, muito culto, com uma formação que advinha dos largos conhecimentos adquiridos num estudo constante no nosso país e em várias viagens ao estrangeiro. Era uma personalidade extraordinariamente dotada de um Humanismo invulgar, um artista inteligente, admirado e respeitado por todos aqueles que o conheciam ou com ele lidavam. (…) Recordo que as suas aulas eram grandes momentos de aprendizagem e amizade.”
José Garcês
“As aulas de Oficinas tinham na parte técnica o Mestre Carlos Mendes, no Desenho Litográfico e História da letra o Mestre Rodrigues Alves, e foram para mim sempre um fascínio. (…) Nunca as suas aulas terminavam ao fim das 4 horas diárias do programa; ficávamos sempre mais tempo apresentando questões.”
José Ruy
“É esse vigor de desenho, é esse vigor de carácter, são essas convicções, são essas palavras amigas e reconfortantes que tinha para todos os seus discípulos, que relembro agora ao embrenhar-me por todo este magnifico espólio. E se me é permitido quebrar o silêncio a que me obriga tão forte e inevitável emoção, não resisto a dizer: Obrigado, Mestre!”
Vítor da Silva
Para quem não conhece esta notável colecção, cuidadosamente construída por um artista e mestre incontornável da história das artes gráficas portuguesas, fica o conselho de consultar o catálogo Colecção Rodrigues Alves publicado pela SCML e, quem sabe, num futuro próximo se possa ver novamente este espólio em exposição.
Helena Alexandra Mantas, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural
