Tetos pintados no património da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
O património artístico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é rico e diversificado. Mas se de algum modo o público que nos visita conhece as várias colecções do Museu de São Roque, ou os Palácios e Conventos e suas igrejas, pode por vezes passar-lhe despercebido um património de grande valor artístico, na sua diversidade de épocas, técnicas e materiais: os tectos pintados. Levante a cabeça e venha connosco ver os nossos tectos.
O visitante que entre pela primeira vez na Igreja de São Roque, provavelmente, vai olhar para a grandiosidade do espaço, a talha das capelas ou mesmo as esculturas nos vários altares, mas quando desloca o olhar para a cobertura da igreja, a primeira reacção é de espanto. De facto é de espantar: estamos diante de um exemplar único em Lisboa, o único que resta dos grandes tectos pintados do período maneirista (conhecemos, apenas por desenhos, o do Hospital Real de Todos os Santos). A presença destes tectos reflecte uma tendência nas igrejas nacionais que, apesar dos antecessores manuelinos ou joaninos, se pode classificar como especificamente Filipina. Reflecte aquilo que é o exemplo do poder da imagem, como meio capaz de impressionar num apelo aos valores da igreja pós tridentina. Como representação de propaganda, mas também de glória, imagem demonstrativa, elucidativa, doutrinária, mas principalmente encantatória, grandiosa e cativante, e directa no sentimento de assombro que provoca pela sumptuosidade e o brilho.
De seguida o visitante desloca-se à sacristia, encontra um tecto não menos elaborado, em abóbada de berço, dividido em caixotões, e decorado com frescos do século XVII, que apresentam emblemas com símbolos bíblicos alusivos à Virgem Maria, integrados na “Ladainha da Virgem”.
E se de São Roque subirmos um pouco, no Convento de São Pedro de Alcântara, quem entrar na Capela dos Lencastres, atribuída ao arquitecto João Antunes, totalmente revestida a embutidos de pedraria (gosto muito em voga entre finais do século XVII e inícios do XVIII),depara-se igualmente com um tecto sobre a entrada, ou endo-nártex em abóbada de arco abatido, revestida por placas de mármore rosa, branco, amarelo e negro formando quadrados, rematados lateralmente e aos níveis superior e inferior por bandas de outros quadrados, que variam ritmicamente quanto à sua policromia. Na nave da capela, uma cobertura em abóbada de berço com pinturas murais, figurando ferroneries, cantarias, grotescos, cartelas epigrafadas, motivos florais, concheados, querubins e emblemática.
Saindo da capela, o visitante dirige-se à igreja e encontra uma abóbada em estuque pintado em grisaille, dado que do tecto original da igreja, que seria em madeira, já nada resta, tendo-se perdido provavelmente com o terramoto de 1755 e substituído pelo actual. Na sacristia pode observar um singular tecto em estuque, da escola de Giovanni Grossi, representando vários objectos de uso litúrgico.
Deixamos o Bairro Alto e dirigimo-nos à colina fronteira a São Roque, a colina de Santana, e vamos visitar o Convento da Encarnação, da Ordem de São Bento de Avis, que para além do interesse pelo edifício na sua arquitectura maneirista e barroca, ou pela talha dourada, pintura e escultura na Igreja e nas várias capelas, ao subir a escadaria nobre, no primeiro lance, podemos admirar uma delicada pintura a têmpera com desenhos florais e medalhões com simbologia beneditina.
Dirigimo-nos agora à zona oriental da cidade para visitarmos o Convento de Santos-o-Novo, da Ordem de Santiago.Para além do imponente edifício maneirista, com o seu grandioso claustro, podemos visitar duas capelas: a Capela de Nossa Senhora da Encarnação, obra do final do século XVII em talha com elementos a ouro e azulejos com uma abóbada pintada a têmpera, onde figuram emblemas com símbolos bíblicos alusivos à Virgem Maria, integrados na “Ladainha da Virgem”; e a capela do Senhor dos Passos, totalmente revestida a azulejaria e talha barroca eum tectocom um delicado trabalho de estuque decorativo, com a representação de símbolos da Paixão, obra do século XVIII.
Não muito longe do Convento de Santos-o-Novo, encontramos o Convento do Grilo, antigo Convento dos Agostinhos descalços, onde podemos admirar o extraordinário tecto da escadaria nobre revestida a silhares de azulejos barrocos e com um tectoem estuques pintados da escola de Giovanni Grossi.
Após visitarmos o património religioso, vamos agora visitar os Palácios da Santa Casa e,de volta ao Bairro Alto, visitamos o Palácio de São Boaventura (Paiva de Andrada).
Contrastando com a simplicidade das fachadas pombalinas do edifico, encontramos no seu interior um conjunto de salas cujos tectos apresentam programas decorativos executados já no século XIX e XX, de acordo com um gosto revivalista e ecléctico. O salão nobre do palácio, de planta longitudinal, tripartida, exibe em cada uma das três zonas uma decoração de tecto diferenciada. No terceiro e último piso do palácio, uma pequena sala com o tecto pintado num estilo revivalista, neo-árabe, muito difundido no final do séc. XIX. Ao lado desta sala situa-se o quarto preservado de Luísa Paiva de Andrade, filha dos proprietários, falecida ainda jovem, que exibe um tecto pintado com um medalhão central representando Santa Filomena com delicadas flores – apontando para a pureza da jovem –, e vestígios de pintura mural nas paredes. Este programa decorativo remete para um estilo classicista, académico, muito difundido na época.
Por fim, na zona norte da cidade, o espaço que reúne o maior número de exemplares de tectos pintados, o Palácio do Marquês de Alegrete. O programa decorativo da Quinta Alegre deve-se a três campanhas de obras distintas: a que nos interessa nestas Notas Soltas é a que se refere à executada no início do XIX, compreendendo pintura mural com motivos neoclássicos de grande qualidade em todos os interiores. O conjunto pictórico está hipoteticamente atribuído a Joaquim Marques (1755-1822), pintor lisboeta discípulo de Jean Pillement, que trabalhou noutros palácios desta zona.
Este programa decorativo deve-se à encomenda de José Bento de Araújo, então proprietário da quinta, que levou a cabo obras no espaço, tanto interiores como exteriores. Subsiste dessa intervenção a inscrição “JBA”, numa cartela pintada na Sala das Artes e “JBA 1819” no portão de acesso ao pátio de aparato do palácio. Cada espaço é decorado de acordo com a sua função: no piso térreo destaca-se a sala de refeições,que apresenta a representação de chávenas, bules e manteigueiras, assim como alimentos como pão, vinho ou frutas. No andar nobre, os quartos verde e rosa, bem como o quarto principal, junto à sala das artes, com a representação de panejamentos e elementos alusivos ao amor conjugal; a sala naturalista – sala de jantar de aparato – constitui o exlibris do Palácio do Marquês de Alegrete. Encontra-se ao centro do andar nobre, em estreita articulação com a fachada de aparato do jardim palaciano. O programa decorativo paisagístico é composto por várias espécies arbóreas e animais, enquadradas por arquitectura pintada, na forma de colunas e uma balaustrada, conferindo a esta sala um aspecto exterior, lembrando os jardins de inverno que proliferam nos palácios do século XIX, e com elementos no tecto relativos à função do lugar: frutos, marisco e peixes. Destacam-se ainda algumas salas, nomeadamente o oratório, com pintura mural de esponjado e motivos vegetalistas nas paredes laterais, e motivos religiosos no tecto, com símbolos das Litanias da Virgem Maria. A sala das artes, decorada com putti ostentando instrumentos musicais, integra-se no conjunto de pintura mural que a Quinta Alegre recebeu entre finais do século XVIII e inícios do XIX, hipoteticamente atribuído a Joaquim Marques. De gosto neoclássico, este programa pictórico foi executado nas obras conduzidas por intermédio de José Bento de Araújo, com conclusão em 1819, cujas iniciais se vêem no mural do lambrim.Pela sua decoração, esta sala cumpria possivelmente funções de recreação, como os jogos, música ou leitura.
Percorremos nestas notas uma longa viagem pelos tectos pintados do património arquitectónico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, venha daí descobri-los ao vivo e a cores.
Paulo Santos Costa, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural