Tesouros Escondidos do Património da SCML
Em Notas Soltas recentemente publicadas, fizemos o compromisso de em breve darmos a conhecer algumas surpresas, ou melhor, descobertas, sobre o Convento de Santos-o-Novo. Porém esses “tesouros escondidos” não foram apenas descobertos nessa casa, mas também, anos antes, na Igreja de São Roque.
A coleção de relíquias e relicários do antigo Santuário da Igreja de São Roque constitui um património ímpar, pela dimensão religiosa das próprias relíquias, pelo caráter artístico das peças que as protegem e ainda pela dimensão histórica que as mesmas encerram. Nem sempre estiveram expostas como hoje as podemos admirar, quer nos altares dos Santos e das Santas Mártires, laterais à capela-mor, quer nos vários retábulos das capelas da mesma igreja e no Museu de São Roque. Não tem paralelo em Portugal o conjunto de relicários que se encontram expostos à contemplação na Igreja de São Roque: peças datáveis dos séculos XIV ao XVIII, parte delas doação de Dom João de Borja, em 1587, e outras reunidas pela Companhia de Jesus, na sua antiga Casa Professa, durante a sua vivência de quase dois séculos em São Roque, chegando à posse da Misericórdia de Lisboa, por doação régia de D. José I, em 1768.
Em 1842, estava reunida em sessão a Comissão Administrativa da Santa Casa quando lhe foi comunicado que “um venerando ancião” se encontrava no exterior, ansioso por partilhar com a Comissão uma enigmática informação. Tendo-lhe sido permitida audiência, declarou que na sua infância costumava ouvir pessoas idosas contarem que existia um tesouro jesuítico escondido por detrás das paredes da igreja. Na sequência deste relato, a Comissão ordenou a retirada de uma grande pintura situada no altar das Onze Mil Virgens (atualmente o altar das Relíquias das Santas Mártires). Por detrás foram encontradas portas e, quando estas foram abertas, a comissão deparou-se com um amplo recesso cheio, por completo, de relicários valiosos. Outros achados semelhantes ocorreram depois. No recesso correspondente por detrás do altar de Todos os Santos (atualmente o altar das relíquias dos Santos Mártires), estava outro tesouro escondido. E assim se descobriu o Tesouro do Santuário da Igreja de São Roque.
Em 1901, um antigo arquivista da Misericórdia de Lisboa, Vítor Ribeiro, relata que “uma preciosa colecção veio à luz, por mero acaso, fechada a cadeado, numa caixa metálica, situada num armário nos corredores do edifício”. A caixa em si é um pequeno baú de lata. Dentro da caixa guardavam-se cerca de 84 documentos de vários formatos, variando entre pergaminhos ornamentados com finos selos em cápsulas, atadas por fitas, e pedaços de papel em más condições, escritos à pressa em caligrafia cursiva. O seu conteúdo, outro tesouro: as Autênticas (autenticações) das relíquias da Igreja de São Roque.
De São Roque, e como prometido, partimos agora à descoberta dos tesouros escondidos do Convento de Santos-o-Novo.
Em janeiro de 2001, após uma das muitas visitas que realizamos ao Convento como irmão da Irmandade do Senhor dos Passos (ereta em 1705 numa capela dos claustros), e ao visitarmos uma das arrecadações da mesma Irmandade, a fim de verificar as condições de conservação do seu espólio, acabámos por descobrir umas tábuas pintadas, correspondendo a dois temas. As mesmas serviam de suporte a uma tela pintada a óleo, representando uma incompleta Última Ceia da Escola Portuguesa, de finais do século XVII, inícios do XVIII, em muito mau estado de conservação.
O suporte de tábuas, em carvalho nórdico, revelava-se mais antigo. Após análise da referida tela, verificámos que parte da mesma se encontrava desintegrada e deixava transparecer pintura nas tábuas, suporte material da tela. Fizemos uma pequena limpeza no momento, a qual se revelou profícua, vindo à luz do dia um belíssimo punho em renda, e respectivo braço, pintados de uma cor intensa, que à partida evidenciava uma pintura de qualidade superior. Após a retirada das tábuas para um ateliê de conservação e restauro, e a posterior remoção da tela, revelou-se a qualidade da pintura, avançando-se a possível atribuição e datação. A autoria, atribuímos ao pintor régio de D. João III, Gregório Lopes, e a datação, a cerca de 1530-1540. Esta atribuição e datação só foram possíveis porque também se constatou que as duas tábuas terão pertencido ao famoso retábulo de Santos-o-Novo, atualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, para onde foi levado em 1911 pelo Dr. José de Figueiredo, então diretor do Museu.
Algumas tábuas apresentam rebarba (quando a pintura é efetuada com o painel ou a tela já emoldurada a tinta aplicada cria no bordo uma pequena altura que delimita a parte pintada, saliência que se designa por rebarba) em algumas faces, sinal de que não foram totalmente sacrificadas, outras há que se encontram cortadas, imolando a própria leitura continuada das figuras representadas. Provavelmente o corte deveu-se ao facto de terem sido queimadas num incêndio, que ocorreu no coro de baixo do Mosteiro de Santos-o-Novo, onde se conservavam, e que está documentado. Também se constata a inexistência de repintes, o que se pode verificar a olho nu e através dos exames de reflectografia de infravermelhos e fotografia a luz rasante a que as pinturas foram submetidas.
As referências ao retábulo do MNAA são muito escassas. João Couto foi o primeiro autor a fazer referência ao retábulo de Santos-o-Novo, numa obra intitulada «O Retábulo Quinhentista de Santos-o-Novo», datando-o da primeira metade do século de Quinhentos. Fala da grande unidade de conceção e realização, fazendo notar a harmonia do colorido, a beleza da figuração, as arquiteturas e pormenores, salientando a notável capacidade do artista no tratamento dos planos fundeiros. João Couto coloca uma pertinente questão, que é a de saber se um único artista teria realizado toda a pintura dos painéis ou se, como é mais plausível, vários artistas, especializados no tratamento de certos assuntos, colaboraram na execução do tema proposto à oficina.
A partir da análise pictural de todo o retábulo, das características da pintura, das personagens representadas e da forma de as representar, verificou-se que se tratava de obra do pintor régio, Gregório Lopes. Contudo, não há qualquer documento que indique que a obra é efetivamente do citado pintor. O único documento é a própria obra de arte, o
conjunto do retábulo a que estas duas tábuas terão pertencido, coroando o mesmo. Sobre as tábuas por nós descobertas, não existe qualquer informação, no sentido em que as mesmas estiveram «escondidas», durante séculos, sendo desconhecidas dos investigadores que têm estudado a obra de Gregório Lopes.
Do retábulo de Santos-o-Novo, sabe-se que foi encomenda de D. Jorge de Lencastre, filho bastardo de Dom João II e grão-Mestre da Ordem de Santiago da Espada, a Gregório Lopes, pintor régio e Cavaleiro da Ordem de Santiago, para o Convento de Santos, mandado erguer por D. João II, em 1490, no lugar chamado de Santa Maria do Paraíso, entre o Mosteiro de Santa Clara e o da Madre de Deus, posteriormente Recolhimento de Nossa Senhora dos Anjos ou de Lázaro Leitão, atualmente um equipamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Do Convento de Santos, pouco chegou aos nossos dias. Um portal manuelino que hoje se encontra no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta; uma escultura em calcário polícromo representando Santiago Menor que se encontra num altar do claustro de Santos-o-Novo, e mais algumas peças igualmente preservadas no Museu Nacional de Arte Antiga. O conjunto retabular, provavelmente seria da capela-mor do referido convento e terá acompanhado as Comendadeiras na passagem para a nova casa, o Convento de Santos-o-Novo. Compõe-se de seis tábuas representando, respetivamente, a “Anunciação”, “Natividade”, “Adoração dos Reis Magos”, “Cristo no Horto” e “Ressurreição de Cristo”; e as duas tábuas por nós descobertas “A Virgem da Lamentação” e “Os soldados deitam sortes sobre a túnica de Cristo”. Fariam ainda parte do retábulo quatro tábuas, porém perdidas.
Não foram apenas estas peças que foram descobertas no Convento de Santos-o-Novo e originárias do Convento de Santos. Em 1490 deu-se a transferência das Comendadeiras para a nova Casa de Santos, um ato da maior solenidade, no qual se transferiram também, do velho para o novo mosteiro, as relíquias dos Santos Mártires e que, Garcia de Rezende, na Chronica d’El Rey Dom João II, descreve da seguinte forma:
“foi em sinco do mez de Setembro de 1490, a qual se celebrou com huma solemne procissam que foy acompanhada do Cabido, e todas as Religiões da cidade, com as cruzes das Igrejas parochiaes della. A Comendadeyra, que era huma grave dona chamada Violante Nogueira, molher de muyta virtude, e honestidade, e assi todas as donas do convento forão no dito dia levadas a pé na procissam, acompanhando as sanctas reliquias que iam dentro de huma tumba dourada, seguindo a procissam grande concurso de todo o estado de gente da cidade, e chegando ao novo mosteiro se recolheram na igreja as sanctas reliquias, e a Comendadeyra e Freyras dentro do novo mosteyro, que quiseram tivesse também o mesmo nome de Sanctos, e por destinçam do mosteyro que tinham deyxado se chamou Sanctos, ficando à igreja do prymeiro mosteyro o titulo de Sanctos o Velho.”
Consideramos que a tumba dourada a que Garcia de Rezende se refere é a que foi por nós descoberta em 2005, no Mosteiro de Santos-o-Novo, dentro de uma outra arca do século XVII, num altar da igreja. Quando a descobrimos, não foi possível a sua transferência do local. Passados alguns anos conseguimos deslocá-la da parte inferior do altar e da arca que a protegia, revelando-se uma preciosa arca entalhada, em carvalho, com características góticas. Trata-se de encomenda de D. João II para as relíquias dos Santos Mártires de Lisboa, para a nova casa de Santos. Constituída por uma tampa esculpida em baixo relevo, representando ossadas e a face principal, igualmente esculpida, representando uma estrutura de ramos entrelaçados e encimados por flor-de-lis, emoldurando ao centro as armas de Dom João II e, lateralmente São Tiago Maior e Santa Sancha, do lado esquerdo; e, São Veríssimo e São Domingos do lado direito. As representações de São Tiago, patrono da Ordem, Santa Sancha, a Comendadeira responsável pela descoberta das relíquias, e São Veríssimo, um dos mártires irmãos, e, portanto, representante dos três, consegue-se compreender o motivo, mas o mesmo se não pode dizer de São Domingos. Considera-se que a sua representação apenas se justifica dado que o Rei terá solicitado autorização para a realização da arca a seu confessor que era dominicano.
Esta arca-relicário é ainda referida na Visitação que Dom Jorge de Lencastre, Grão Mestre da Ordem, fez ao Mosteiro de Santos em 1513, onde é descrito: “e asy visitamos o sepulcro omde jazem os corpos dos samtos martires Maxima e Verysymo e Julia o qual moymento esta ademtro na capella moor metido na parede da parte do Evamgelho em huua arca dourada (…).”
Este documento é abundante de informações e descrições dos interiores e exteriores do cenóbio Joanino. Verdadeiro documento da Cripto-História da Arte, e que vem confirmar a autenticidade da descoberta. Igualmente, permite-nos compreender a importância que este Mosteiro de Santos teve em termos históricos, iconológicos, políticos, ideológicos e estéticos, e como ainda no presente continua a revelar e permitir resgatar tesouros escondidos.
Paulo Santos Costa, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural