“Real, real, real por el-rei de Portugal"

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

Quem visita o Museu de São Roque não pode deixar de reparar no retrato de D. João III, pintado por Cristóvão Lopes em 1552 a partir do original do pintor flamengo António Moro. Nele encontramos um rei despojado dos seus atributos convencionais: nem coroa, nem ceptro, nem manto. Taciturno e distante, o Rei de Portugal e senhor de um império espalhado por três continentes está totalmente de preto, tem um gorro da mesma cor e exibe apenas um anel, umas luvas e uma adaga de ouro. A comparação com o aparato cenográfico com que seu pai, D. Manuel I, se fazia representar é praticamente inevitável…

Será este quadro a imagem de um rei esquivo, incapaz de replicar a grandeza paterna? A imagem deixada do envelhecer de um rei cansado, abatido por tantas desgraças familiares e com a sua dose de fracassos políticos?

Na verdade, uma coisa temos por certa: quem olha para esta pintura está muito longe de adivinhar quão auspicioso foi o começo do seu reinado cinco séculos antes de escrevermos estas linhas, no dia 19 de Dezembro de 1521.

 

Rei morto, Rei posto

Por essa altura, São Roque era ainda uma pequena ermida fora das muralhas da cidade em expansão. Porém, quem nesses dias subisse ao seu telhado poderia lobrigar o Rossio e ver a preparação de um espetáculo que não se iria repetir nunca mais: a Aclamação de D. João III como novo rei de Portugal.

O costume do reino ditava que o novo monarca fosse aclamado três dias depois do enterro do seu antecessor. No entanto, a vontade de ‘‘aparato e pompa’’ (palavras do Cronista Francisco de Andrada) e a chuva persistente atrasaram três dias a cerimónia. Nesse intervalo e com a supervisão pessoal do príncipe, tudo se preparou: em frente à igreja de São Domingos montou-se um alpendre que cobria um estrado elevado seis degraus acima do chão, um ‘estrado triunfal’ como lhe chamou Garcia de Resende ou, melhor ainda, “um teatro”, no dizer de Francisco de Andrada. Com efeito, o estrado serviria de palco para as cerimónias públicas que marcava o pleno início do reinado: o ‘levantamento’ do rei seguido da sua ‘aclamação’.

Desde o século XII que era a ‘aclamação’ a legitimar o Rei de Portugal. Cada uma repetia, quase como um rito, o gesto dos cavaleiros que antes da batalha de Ourique levantaram num escudo Afonso Henriques e declararam o seu príncipe como rei. Por isso, nas crónicas, os reis de Portugal são ‘levantados’, ‘alçados’ ou ‘aclamados’ e não ‘coroados’, ‘ungidos’ ou ‘entronizados.’ A monarquia portuguesa trai aqui o seu remoto passado germânico. Os reis de Portugal são reis da Reconquista, descendem dos monarcas asturo-leoneses que, por sua vez, assumem o manto dos soberanos visigodos. Estes mantinham vivas as longínquas tradições germânicas segundo as quais o rei era escolhido e logo elevado num escudo transportado pelos notáveis da comunidade. Esta preferência dos povos da Germânia por um monarca eleito e aclamado contrasta, por exemplo, com a França e a Inglaterra, cujos reis só eram plenamente legítimos depois de ungidos e coroados em cerimónias litúrgicas próprias.

Deve notar-se, porém, que, pelo menos durante a primeira dinastia, os reis portugueses eram também coroados. Em 1179 o Papa dera a Afonso Henriques a coroa e as restantes regalia e, pela mesma altura, definiu-se mesmo uma liturgia para os bispos portugueses celebrarem. Os primeiros reis seguiram a tradição de se fazerem coroar em Coimbra. No entanto, tratava-se de uma cerimónia que tinha implicações políticas indesejadas para o rei e para o reino: se fosse o rito da coroação a constituir o rei, o clero poderia subalternizar o papel do monarca.

 

Uma manhã radiosa

Estava ‘‘tanta multidão de povo que parecia estar todo o reino junto’’, nas palavras de um testemunho guardado por Frei Luís de Sousa. Um cronista contemporâneo, Garcia de Resende, disse que esteve na aclamação ‘‘gente sem conto’’. Gaspar Correia confirma estas impressões ao dizer que houve quem morresse esmagado pela turba. Todos queriam aclamar o rei que Gil Vicente descreve de forma efusiva: O príncipe dom João, é Príncipe angelical /…/ o seu rosto tão fermoso/ que parece devinal /seus olhos resplandeciam/ como estrelas igual. /Os cabelos da cabeça/ d’ouro eram que não d’al/ sua boca graciosa/ com ar muito angelical/ …. A indumentária vem descrita em pormenor por Frei Luís de Sousa: levava o rei uma opa roçagante de brocado, forrada em martas, sobre gibão de tela de prata, cinto e adaga de ouro, colar de pedraria. Só este colar, acrescenta hiperbolicamente Gil Vicente, valia toda a Alexandria.

Chegado ao alpendre, onde o aguardava o seu irmão, Cardeal D. Afonso, D. João III desmonta, sobe ao estrado mais alto onde o esperava uma cadeira de espaldar e recebe o ceptro. Espera um discurso dirigido ao povo a explicar a sua legitimidade e as razões da obediência devida ao rei. Depois, ajoelhado diante de um missal e de uma cruz, o filho de D. Manuel I jurou proteger os ‘bons costumes, privilégios, graças, mercês e liberdades e franquias … pelos reis passados dados.’ De seguida, vieram prestar juramento de fidelidade ao rei os principais nobres, o Cardeal D. Afonso, pelo clero, e os vereadores de Lisboa em representação de todos os concelhos do reino. Terminado o ‘levantamento’ do rei, em que o estrado fazia as vezes do escudo, seguia-se a ‘aclamação’ propriamente dita. Esta consistia na repetição do pregão ‘real, real, real pelo muito alto e muito poderoso senhor El-rei D. João nosso senhor.’ Os presentes repetiram este brado, consumando assim a aclamação.

Todas as descrições salientam a grandeza da cerimónia e por outras fontes conhece-se a intervenção pessoal de D. João III no seu planeamento. Gil Vicente alude mesmo à inveja dos estrangeiros que murmuravam ‘mui ditoso é Portugal.’ Como refere Frei Luís de Sousa, ‘a idade de vinte anos … e sua natural gentileza acrescentavam graça e ar a tudo.’

 

Um triste entardecer

No entanto, como nos conta Ana Isabel Buescu, D. João III mal terminou a cerimónia voltou para o Paço da Ribeira, abandonou as vestes magníficas para voltar ao mais estrito luto e recolheu-se numa sala revestida de panos pretos. São estes panos que fecharam a cena. Acabara o teatro.

 

Ao crepúsculo

O contraste entre o quadro do Museu de São Roque e as descrições dos cronistas parece total. Comparar os dois é contar a história de um reinado que passou dos tempos venturosos de D. Manuel para o início da decadência.

Todavia, fazer este contraste é cair nas aparências fáceis. As narrativas da aclamação deixam dois pormenores reveladores que mostram como o ‘príncipe angelical’ era já um homem escrupuloso a quem o fausto não deslumbrava. O primeiro, assinalado em dois relatos diferentes, é que apesar do vestuário majestoso, o rei levava na cabeça um simples gorro preto. O segundo é que o novo rei, por duas vezes, mandou calar os instrumentos de música, em atenção ao seu pai ainda por enterrar.

Esta dualidade entre uma manhã apoteótica e pública e uma tarde sombria e privada parece ser uma boa chave iconográfica para compreendermos o retrato à guarda do Museu de São Roque. O cerimonial nunca deslumbrou D. João III. Pelo contrário: os seus contemporâneos descrevem-no como um rei ponderoso, reflectido, impassível, secreto, dotado de auto-domínio e grande memória para os negócios do estado. Ao longo de mais de três décadas de reinado despachou pessoalmente grande parte dos assuntos, ruminando todas as decisões, para desespero de conselheiros e diplomatas.

Na sua sagaz descrição do momento, Gil Vicente deixou para a posteridade, tanto as boas palavras dos nobres no momento da aclamação como o conselho dos vereadores de Lisboa:

nam estimeis o dinheiro
e a todo o bom cavaleiro
sede muito liberal
e esquivo ao lisonjeiro

D. João levou a sério esta advertência e decidir bem, sem se deixar afetar pela lisonja ou pelos favores, parece ter sido uma preocupação constante do seu governo. Não eram, para D. João III, os mantos e coroas que o faziam o rei e o fausto e o aparato não eram a essência do poder, mas sim um acessório. Decidir, eis o fardo que fora imposto a D. João III nessa manhã há quinhentos anos atrás e que o quadro do Museu de São Roque tão luminosamente nos revela.

 

Patrícia Lamas, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural