Práticas de Conservação e Restauro em São Roque

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

Quando pensamos em património histórico, artístico e cultural, lembramo-nos frequentemente dos museus e de todos os objetos que aí se encontram expostos e preservados e dos monumentos, que de alguma forma ilustram um momento importante da nossa história, ou que valem simplesmente pelo seu contributo para a história da arte e da arquitetura. Ora muitos destes objetos e monumentos não teriam chegado aos nossos dias se não existissem profissionais que se dedicam a cuidar deles, atuando sobre o ambiente que os envolve ou, quando necessário, recuperando a sua integridade que, com o passar dos tempos, por vezes se vai perdendo.

A intervenção destes profissionais sobre os bens patrimoniais pode dividir-se em diferentes tipos de ações: a conservação preventiva, a conservação curativa e o restauro.

A conservação preventiva tem como principal objetivo criar condições que ajudem a evitar, ou minimizar a ocorrência de danos sobre os bens patrimoniais e passa por ações como a limpeza e higienização dos espaços, incluindo o controlo de pragas; o correto manuseamento e acondicionamento, o controlo das condições ambientais (como a temperatura e a humidade relativa do ar) e o controlo de níveis de luminosidade. Resumindo, através de medidas preventivas, pretende-se evitar a necessidade de se intervir diretamente sobre o objeto e evitar custos desnecessários.

A conservação curativa tem como objetivo interromper os processos de degradação em curso e estabilizar os materiais constituintes do objeto e passa por ações de limpeza, desinfestação, consolidação, fixação, remoção de oxidação, etc. Tanto a conservação curativa como o restauro implicam uma ação direta sobre o objeto.

O Restauro tem como propósito devolver (ou restaurar) o aspeto e/ou a função original de um objeto, podendo esta restituição ser parcial ou integral, consoante o estado de preservação e a utilidade do mesmo. Frequentemente não está relacionado com necessidades de conservação material, mas apenas com questões estéticas ou funcionais. Exemplos de intervenções de restauro são a reconstrução formal ou volumétrica, a reintegração da policromia (pintura ou camada de tinta), o preenchimento de lacunas, etc.

O conservador-restaurador assume o papel de um “médico do património”, tentando evitar “doenças” ou danos nos bens patrimoniais através da conservação preventiva.

Tal como os médicos, os conservadores-restauradores utilizam os exames e análises laboratoriais para chegar a um diagnóstico. Os RX (ou radiografia) para verem o que se passa no interior dos objetos (como cavilhas, pregos, orifícios ou outras caraterísticas construtivas ou materiais); as análises estratigráficas, por exemplo para conhecerem as várias camadas de policromia que um objeto pode ter adquirido ao longo da sua história; a análise microscópica para observação de amostras e caracterização de materiais e muitos outros métodos de análise disponíveis e úteis ao património material.

Frequentemente os equipamentos utilizados no tratamento dos objetos são idênticos aos utilizados nas pessoas, como é o caso das luvas, utilizadas para manusear os objetos sem os sujar com a gordura das mãos ou para mexer em produtos químicos sem risco de contato destes com a pele; ou as seringas, utilizadas para injetar no interior dos objetos produtos químicos destinados à consolidação ou desinfestação da madeira; o algodão, utilizado sobretudo nas limpezas húmidas e os bisturis, utilizados para fazer cortes cirúrgicos.

Por último, sempre que é eticamente viável e fisicamente possível, o restaurador devolve a integridade formal e funcional ao objeto, tal como um cirurgião reconstrói o aspeto e a função de um membro ou órgão após um trauma.

Ainda que o conservador-restaurador assuma um papel de destaque na salvaguarda patrimonial, é importante termos consciência que todos nós somos responsáveis pela preservação do património, nomeadamente através do cumprimento das regras definidas pelas instituições que o conservam, como os museus, as igrejas, os monumentos, os sítios arqueológicos ou outros. Além disto, no contacto direto com bens patrimoniais devemos ter alguns cuidados, tais como: evitar a utilização de velas, pelo perigo de incêndio e evitar aproximá-las dos objetos para precaver a deposição de fuligem; não vandalizar o património, nomeadamente através da realização de riscos, pinturas, grafitis, aplicação de pregos ou utilização dos mesmos para fins decorativos, ou outros; evitar colocar vasos ou jarras de flores naturais em cima de bens patrimoniais, devido ao perigo de danos por humidade e de atração de insetos; por último, em caso de dano, não tentar “arranjar” por iniciativa própria e consultar sempre um conservador-restaurador para o efeito.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem vindo a garantir a salvaguarda e valorização do acervo da Igreja e Museu de São Roque através de um programa de requalificação que teve início, de forma mais evidente, na década de 1990.  Não querendo enunciar de forma exaustiva as intervenções levadas a cabo, destaco algumas mais relevantes, designadamente, o reforço das fundações da igreja, que se concluiu em 1998, com a renovação dos corredores e galerias superiores da nave da igreja; em 2001, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e o apoio técnico da, entretanto extinta, Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais realizou-se o restauro do teto quinhentista da igreja, o mais antigo teto pintado remanescente em Lisboa; já em 2005 teve lugar o restauro das sete telas do altar-mor, pinturas seiscentistas de grandes dimensões que formam um ciclo pictórico ligado ao Calendário Litúrgico; em 2006, foi a vez do restauro do Ciclo pictórico “Vida e Lenda de São Francisco Xavier”, pinturas seiscentistas do pintor André Reinoso, situado no arcaz da sacristia; entre 2007 e 2012 procedeu-se ao restauro das oito capelas laterias da igreja; ainda em 2009, completou-se o trabalho de restauro do órgão de tubos, a cargo do Mestre organeiro, Dinarte Machado.

Destaca-se, entre os trabalhos de conservação e restauro na Igreja de São Roque, o restauro da Capela de São João Baptista, em 2012, obra mandada executar por D. João V em Roma no século XVIII que, com o seu acervo de alfaias litúrgicas e paramentaria italiana assume uma importância única no contexto da arte internacional. Para além do trabalho de limpeza dos elementos metálicos e pétreos da capela, resultante de protocolo celebrado entre a Misericórdia de Lisboa e o Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), incluiu a recuperação dos painéis em mosaico, assegurada por uma equipa técnica credenciada pelo Instituto Central per il Restauro de Roma.

Sílvia Pereira, Museu de São Roque

Helena Alexandra Mantas, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural