Património de valor Arquitetónico, Histórico e Cultural
Nos quinhentos e vinte e dois anos de existência da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a sua principal missão é cuidar de quem mais precisa. Porém, nesta ação tem contado com o precioso apoio de muitos homens e mulheres que lhe têm confiado os seus bens. As ações de Benemerência a favor da Misericórdia de Lisboa têm sido verdadeiramente determinantes para que, ao longo destes séculos, milhares de pessoas possam ser apoiadas, todos os dias. Por essa razão, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tornou-se numa das maiores proprietárias da capital. Desde há alguns anos que a Misericórdia desenvolve uma vasta e diversificada intervenção de reabilitação e revitalização do seu património. Considerando que uma parte considerável deste património se localiza no centro da cidade, ao revalorizar os seus edifícios, a Santa Casa restitui espaços antes fechados à população e contribui para uma cidade mais vivida e segura, possibilitando observar o desígnio social que a enforma e fortalecer a sua sustentabilidade económica.
Este texto é dedicado a um conjunto patrimonial específico: palácios, outrora propriedade de famílias nobres da sociedade portuguesa que, quer por benemerências quer por aquisições, chegaram à posse da Misericórdia de Lisboa.
O Palácio dos Marqueses de Minas, na Rua da Rosa ao Bairro Alto, foi construído na segunda metade do século XVII, na então Vila Nova de Andrade. Este edifício conserva um grande conjunto do património azulejar in situ, recuperado na década de 1990. De fachada austera e sóbria, como é característico das construções do séc. XVII, e de reconstrução Pombalina, sofreu várias alterações ao longo dos séculos, com ampliações que descaracterizaram algumas das suas dependências. Foi inicialmente residência dos Marqueses de Minas, depois Recolhimento de Órfãs de Militares, Pensionato, o 1° Centro Social e Lar da SCML.
Transpondo o portal do século XVII, entramos num edifício quase totalmente revestido com painéis de azulejos do séc. XVIII, com maior destaque para as salas do primeiro piso, a sala das batalhas e o salão nobre. A sala das batalhas, com silhares de azulejos representando batalhas, campos de batalha e acampamentos militares, e o salão nobre revestido de painéis com a representação de cenas de corte, jardins com fontes, parterres de buxos, figuras representando nobres a passear e construções arquitetónicas ao gosto barroco. Numa das paredes, acima de um silhar de azulejos, dois painéis ovais, representando dois nobres, podendo corresponder a um Marquês e Marquesa de Minas, anteriormente dispostos em paredes do pátio do palácio. Situa-se também no primeiro andar a Capela dedicada a Nossa Senhora, revestida com painéis de azulejos representando cenas da Anunciação do Nascimento de Jesus e painéis com símbolos Marianos, inspirados no Cântico dos Cânticos, todos atribuídos a Bartolomeu Antunes. Por este Palácio acede-se a um outro edifício ligado a este por uma escadaria com silhares de azulejos com cenas de caça. De traça mais simples e mais adulterado interiormente, pertenceu a Leitão de Andrade.
O Palácio Paiva de Andrada ( São Boaventura), situado de gaveto, na esquina entre a Rua de São Boaventura e a Travessa do Conde de Soure, foi erguido na segunda metade do século XVIII, na sequência do Terramoto de 1755, por iniciativa de Manuel Gomes de Carvalho e Silva, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, fidalgo da Casa Real, Tenente-Geral de Artilharia do Reino e Intendente-Geral do Arsenal Real do Exército. Em 1794, José Xavier da Cunha d’Eça Telles e Meneses de Carvalho e Silva, Conselheiro do Ultramar, fidalgo, Comendador da Ordem de Cristo e de São Tiago, toma posse do palácio por morte do pai. Falecido em 1824 sem deixar descendentes diretos, José Xavier de Carvalho e Silva lega o Palácio em Testamento a Fernando de Mesquita Pimentel de Paiva Barreto, seu primo. Já em 1862, João de Mesquita, filho de Fernando de Mesquita Pimentel de Paiva Barreto, vende o imóvel a Jerónimo de Magalhães, Visconde de Torrão, cuja filha, Ana de Magalhães, o venderia, por sua vez, a Jacinto Augusto Paiva de Andrada, no último quartel do século XIX.
Uma vez na posse de Jacinto Augusto Paiva de Andrada e esposa, Carolina Augusta Picaluga Paiva de Andrada, o palácio foi objeto de uma grande campanha de obras de remodelação ao nível do interior e das fachadas. No início do século XIX são feitas intervenções interiores e exteriores no edifício e em 1908, já após a morte do proprietário, são realizadas novas intervenções por iniciativa da viúva nas fachadas exteriores e a construção de uma capela no piso térreo.
Em 1912, Carolina Augusta Picaluga Paiva de Andrada lega o imóvel à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa com a condição da Instituição instalar no local um recolhimento de meninas com o nome de “Instituto Luísa Paiva de Andrada”, em homenagem à sua filha que falecera em 1892 vítima de tuberculose. Uma cláusula do Testamento de Carolina Paiva de Andrada estipulava que o quarto de Luísa Paiva de Andrada fosse mantido tal como se encontrava e resguardado de visitantes, ficando a Santa Casa obrigada a colocar diariamente um jarro de flores junto à cama da menina. Já na posse da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o imóvel foi objeto de várias campanhas de obras de conservação e remodelação e é transformado num equipamento social da SCML.
Este palácio apresenta planta em “U”, estruturada em torno de um pequeno pátio murado que se desenvolve nas traseiras do imóvel. Quanto ao interior, o imóvel apresenta três pisos, o último dos quais situado ao nível do telhado, de menor área. Do vestíbulo acede-se a uma escadaria oitocentista, simples mas de bastante impacto cénico decorada ao gosto neoclássico. Contrastando com a simplicidade das fachadas pombalinas do edifício, encontramos no seu interior um conjunto de salas cujos tetos apresentam programas decorativos executados já no século XIX e XX, de acordo com um gosto revivalista e eclético. O Salão nobre do palácio de planta longitudinal, tripartida, exibe em cada uma das três zonas uma decoração de teto diferenciada. No terceiro e último piso do palácio, de referir uma pequena sala com o teto pintado num estilo revivalista, neoárabe, muito difundido no final do séc. XIX. Ao lado desta sala, situa-se o quarto preservado de Luísa Paiva de Andrade, com um teto pintado com um medalhão central representando Santa Filomena e vestígios de pintura mural nas paredes do quarto. Este programa decorativo remete para um estilo classicista, académico, muito difundido na época.
A Quinta Alegre ou Palácio do Marquês de Alegrete é uma quinta de veraneio do início do século XVIII construída por iniciativa de Manuel Teles da Silva, 2º Conde de Vilar Maior e 1º Marquês de Alegrete (1641 – 1709). Situada na Charneca do Lumiar, uma das muitas zonas limítrofes de Lisboa ocupadas por palácios da aristocracia, a sua construção teve início em data incerta por vontade do 1º Marquês de Alegrete. Inicialmente de maiores dimensões, incluía não só o palácio e o jardim, mas também cavalariças, um vasto terreno de cultivo, estruturas para captar e distribuir águas, edifícios para alfaias agrícolas e armazenagem.
Desconhece-se a autoria do projeto, porém é possível que tenha se deva ao arquiteto João Antunes dado que havia relações familiares entre este e o Marquês de Alegrete, para além de que o projeto do palácio da Mouraria, residência principal da família até ao terramoto de 1755, está atribuído ao Arquiteto João Antunes, sendo possível que o Marquês recorresse ao mesmo autor para a quinta de veraneio. O palácio foi sendo decorado, acrescentado e alterado ao longo de épocas seguintes.
No seu todo, o programa decorativo da Quinta Alegre deve-se a três campanhas de obras distintas: no segundo quartel do século XVIII (azulejaria no jardim superior); na segunda metade do século XVIII (azulejaria da cozinha e silhares do interior), no início do XIX (pintura mural) em todos os interiores do palácio.
O programa decorativo executado no século XIX deve-se à encomenda de José Bento de Araújo, então proprietário da quinta, que levou a cabo obras no espaço, tanto interiores como exteriores. Subsiste dessa intervenção a inscrição “JBA 1819”, que se encontra no portão de acesso ao pátio de aparato do palácio.
Classificada como Imóvel de Interesse Público, foi adquirida em 1983 pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa à Condessa de Vilar Maior, Ana Maria Teles da Silva Meneses, passando a funcionar no palácio o Centro de Promoção Social da Charneca, transferido posteriormente para outro edifício. Foi então recuperada, depois da aprovação de um projeto de residência intergeracional, em 2014. Em 2017 inaugurou-se a reabilitação do Palácio e jardins após uma cuidada e morosa campanha de restauro.
O Palácio Portugal da Gama (ou Palácio de São Roque) situa-se na margem do Bairro Alto, com entrada nobre pelo Largo Trindade Coelho, e deitando a sua longa fachada lateral sobre a Travessa da Queimada. O terreno pertencia ao Convento da Santíssima Trindade por doação de Francisco Rodrigues e sua mulher, Constança Esteves. Esteve aforado a Beatriz de Andrade e depois de loteado teve múltiplos contratos de aforamento realizados pelos Trinos nos anos iniciais de loteamento.
De entre os muitos foreiros dos trinos, desataca-se a figura de Ana Queimada. No seu testamento, de 1587, Ana Queimado deixa as casas a Simoa Godinha, a “Preta Simoa”, São Tomense, uma das mulheres mais ricas de Lisboa, herdeira das primeiras fortunas de São Tomé e Príncipe. Anos mais tarde, o Convento da Trindade faz o reconhecimento de foreiro ao Principal, D. Domingos de Vasconcelos Portugal, em 1745, relativo a umas casas na Rua Larga de São Roque.
D. Domingos reduz o palácio, a partir da década de trinta de Setecentos, à parte composta pela frente para São Roque, aumentando dois pisos, com aberturas maiores, de acordo com os parâmetros palacianos do século XVIII, e a “invenção” da nova fachada sobre São Roque, abrindo dois amplos portais no piso térreo. Nos novos pisos abre uma série de dependências, com três salas maiores sobre a fachada principal nascente. Após a morte de D. Domingos de Vasconcelos Portugal, em 1773, o palácio, passa à posse dos inúmeros herdeiros, sobrinhos do defunto. Após partilhas, o palácio coube ao sobrinho mais velho, D. José Francisco de Portugal da Gama de Vasconcelos e Sousa, Conde de Lumiares. Deste herdou-o sua filha única, D. Maria do Resgate, 3ª Condessa de Lumiares. Até 1807 o palácio é arrendado em núcleos separados, mantendo-se na posse dos herdeiros dos Condes de Tomar, sendo arrendado no todo ou em parte a diversas entidades, públicas e privadas. Em 2000, a família Costa Cabral de Macedo, descendentes dos Condes de Tomar, vende a propriedade e em 2008 o imóvel é novamente vendido e adquirido pelo Fundo Baixa Chiado que, por sua vez, o venderia pouco depois a outro Fundo Imobiliário. Em 2014, a Santa Casa da Misericórdia tornou-se proprietária do Palácio dando início a profundas obras de recuperação para nele instalar o futuro Museu, Casa Ásia – Coleção Francisco Capelo.
O Palácio dos Condes de Tomar é um edifício de Arquitetura residencial romântica, construído na segunda metade do séc. XIX por António Bernardo da Costa Cabral, 1º Conde e 1º Marquês de Tomar, sobre um edifício pré-existente, datável do séc. XVIII.
Entre 1927 e 1950 funcionou no edifício o Royal British Club. Em 1970 a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu o Palácio para ali instalar, em 1973, a Hemeroteca Municipal.
Em 2012, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa adquiriu o edifício à Câmara Municipal de Lisboa. Após profundas obras de reabilitação instalou-se no antigo palácio a Brotéria, uma casa de cultura dos jesuítas portugueses em Lisboa.
Trata-se de um Palácio urbano, dominado por uma organização e compartimentação interna definida por espaços de diferentes dimensões e morfologias articulados de modo labiríntico, com zonas de circulação irregulares, em termos de implantação e distribuição. Esta situação generalizada é apenas contrariada na zona envolvente da escadaria monumental (vestíbulo) e dos principais compartimentos do andar nobre, dispostos ao longo do alçado principal do edifício – espaços de grande aparato, amplitude e ordem, decorados com pintura mural e estuques nos tetos. É composto por quatro pisos, um deles parcialmente enterrado e outro ao nível da cobertura. O alçado principal está organizado em função de dois registos horizontais separados por cornija, o inferior rasgado pela sobreposição de vãos com gradeamento e varandim em ferro, correspondentes ao piso térreo e a um andar intermédio.
A reabilitação de forma integrada e coerente deste tipo de edificado constitui um paradigma da prioridade que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa atribui à preservação do seu património e à sua devolução à cidade, colocando-o ao serviço da comunidade. Ao mesmo tempo, acrescenta-se capacidade ao conjunto das respostas sociais inerentes à missão da Santa Casa.
Paulo Costa, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural
