O Sagrado e a Arte

Relicário de prata

Desde sempre o homem procurou compreender o sagrado através da arte. As grutas e cavernas foram em tempos mais recuados, as formas primeiras dos santuários naturais e no que diz respeito às cavernas paleolíticas, pode discutir-se se as pinturas murais que as ornamentavam, teriam um sentido puramente artístico, ou se pelo contrário, elas escondiam uma significação mística. Arriscaremos encontrar nesta tendência de divinizar as cavernas e as grutas, uma das razões pelas quais os primeiros cristãos se serviram das Catacumbas para enterrar os seus mortos. Porém se está demonstrado que elas nunca serviram para refúgio dos cristãos, mas para sepultamento e posteriormente lugar de culto dos mártires, não se compreende porque assim o fizeram e continuaram a fazê-lo.

Sem afirmar que todo o mágico e totémico, contido nas religiões primitivas, tem no Cristianismo uma influência direta, poderemos ver ali o que é fundamental à reacção humana diante do sagrado.

Impõe-se, porém, distinguir o sagrado pagão do sagrado cristão. No sagrado cristão entra o “santo”, conceito que completa e corrige a noção primitiva do sagrado.

Quando pensamos na conjugação do Sagrado e da Arte, é importante que analisemos a raiz das palavras. Sagrado (do termo latino sacratu) aponta para algo que merece veneração ou respeito religioso por ter uma associação com uma divindade ou com objetos considerados divinos.

Arte (do termo latino ars, significa a técnica e/ou habilidade) pode ser compreendida como a atividade humana unida às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de expressões, tais como a arquitetura, o desenho, a pintura, a escultura, a escrita, a música, a dança, o teatro e o cinema, nas suas mais variadas combinações. O processo criativo ocorre a partir da compreensão com o propósito de expressar emoções e ideias, visando um significado único e diferente para cada obra.

A noção de espaço sagrado e de tempo sagrado entra no campo das interdições e tem um significado talvez ainda mais puro, pois que, tratando-se de coisas inanimadas, não entram nela as qualidades pessoais e as consequentes acções humanas que podem influenciar sobre o «maravilhoso» com que certas personagens são rodeadas.

O Sagrado, porque é considerado como modelo ideal, inalterável na ordem humana, situa-se fora do tempo. De outra parte, a duração é impureza. A concepção do mundo mítico, que não está submetido às vicissitudes do tempo humano, prova que o sagrado se distingue do impuro, enquanto ele representa uma espécie de meio ideal onde a condição humana se funda num mundo numinoso, ficando assim livre das impurezas do «devenir». O tempo sagrado é assim uma espécie de síntese entre o temporal e o intemporal, entre a condição humana e o incondicionado. Pode considerar-se que o sagrado não tem uma “política de arte”, e não podia tê-la porque a sua missão é conservar e interpretar o transcendente. Dado que o sagrado transcende o tempo e o espaço, não pode ligar-se a nenhum momento histórico e a nenhuma civilização ou povo, sem o perigo de perder o sentido do universalismo.

Uma definição da função da arte, e acrescentaríamos da arte ao serviço do sagrado, diz-nos que “A função de toda a arte é quebrar o ciclo estreito e angustioso do finito em que o homem está fechado, enquanto ele vive na terra, e de o abrir, como uma janela, ao seu espírito desejoso de infinito (…) Pio XII, in Musicae Sacrae Disciplina (Encíclica sobre a Música Sacra-1955).

É um facto que a arte, como tal, não implica uma missão moral ou religiosa, explicita. Enquanto é linguagem do espírito humano, se ela o reflecte na sua verdade total, ou se ao menos o não deforma positivamente, a arte é já por si mesma sagrada e religiosa, na medida em que interpreta a obra de Deus, na visão cristã do homem criado à imagem e semelhança de Deus. É neste sentido que na criação artística há três circunstâncias a ter em conta: o sujeito ou tema, a forma e o conteúdo. O tema existe fora do artista e é, por exemplo, uma representação da Virgem com o Menino. O conteúdo é a maneira como ele sentiu esse tema, e a forma a sua revelação externa e sensível. Diante do mesmo tema, as reacções são diferentes, porque o conteúdo (modo de sentir) depende da personalidade do artista e, portanto, a expressão plástica (que é a forma) também resulta diversa. Na alma do artista o conteúdo e a forma estão em síntese, mas eles não são o tema. Se um artista pensa na sua mulher e no seu filho, no momento de criar uma imagem da Virgem, sairá uma obra diferente daquele que pensou na Virgem com o Menino (mãe de Deus). Não queremos com isto concluir, levianamente, que será melhor ou pior a obra daquele artista que criou uma Virgem, partindo deste ou daquele ponto, porque ambas podem ser de igual valor, se o autor conseguiu exprimir bem a força da sua criação. Uma representação da Virgem de Paula Rego, nem é melhor nem pior do que uma de Rafael, é diferente. Em arte não se deve muito insistir sobre progresso de qualidade, mas cada obra deve julgar-se no tempo e segundo o conteúdo que o artista exprimiu. (Lionello Venturi, Come si compreende la Pintura, 21, Roma, 1951). É o artista que faz nascer a obra de arte. Assim como o Santo é um génio no plano ético e o sábio no campo do verdadeiro, o artista sente o belo. Daqui resultam os chamados transcendentes, que, filosoficamente, se unificam na Perfeição Absoluta, de modo a poder concluir-se que o bom, o verdadeiro e o belo são qualidades reciprocamente participantes. O que é bom também é verdadeiro e belo, e assim sucessivamente.

Outra reflexão, não menos importante para avaliar uma obra de arte, é a liberdade. O artista tem de ser livre na conceção da obra de arte e também na obra de arte sagrada. O artista só o é verdadeiramente, quando produz em verdade. A sua obra só será bela quando for verdadeira, isto é, quando o seu conteúdo e forma corresponderem a uma verdade que o tema pode consentir. A obra de arte baseia-se numa verdade e num conteúdo subjectivo e espiritual.

No acervo do Museu de São Roque, no seu todo de matriz cristã, permite encontrar as influências de que artistas de outras realidades culturais, influídos que estavam pela sua diversidade cultural, representaram o sagrado cristão à luz de uma cultura de matriz cultural diferenciada. Na sua liberdade criadora, conceberam, com materiais locais e temas aculturados, peças consideradas hoje de grande valor pela miscigenação cultural que revelam, elementos da sua própria cultura, como é o caso do Cofre Relicário de São Francisco Xavier, peça original de Goa do séc. XVII, com a representação de animais e plantas relacionadas com a cultura e ritos locais. Outras peças do acervo, como é o caso da estante de missal ­e o cofre relicário, ambas peças com origem no Japão, séc. XVII, do período Momoyama, em madeira lacada, pó de ouro e prata (maqui-é), com incrustações em madrepérola (raden) e cobre dourado, peças que chegaram à colecção graças a doações à Companhia de Jesus, e que tiveram utilização como objectos de culto dentro da Igreja Católica contra-reformada.

Paulo Santos Costa, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural