Igualdade no século XXI? Vá já a um museu
Propõe o International Council of Museums (ICOM) que este ano o Dia Internacional dos Museus (18 de Maio) tenha como tema “Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão”, três tópicos em voga, presentes na sociedade pelas feridas que representam. Mas o que podem ter eles que ver com o Museu de São Roque?
Como primeiro impacto, logo se recorda que o Museu de São Roque conta três grandes histórias que assentam que nem uma luva no tema: a de Roque de Montpellier – homem que para descobrir quem era, identificou-se com os mais pobres e sofredores, mudando radicalmente de vida; a história da Casa Professa da Companhia de Jesus – de entre os melhores advogados dos negros e dos índios encontramos os nomes de sacerdotes jesuítas; e, finalmente, a da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – cuja obra acontece entre a diversidade e pela inclusão.
Num segundo momento importa aludir aos passos que o Museu de São Roque tem vindo a dar para se tornar mais inclusivo, através de meios técnicos e da construção de programas culturais que vão ao encontro das periferias da sociedade. Um longo e desafiante caminho a percorrer, que este museu sente como vocação particular.
Mas um terceiro ponto diz respeito à própria natureza de um museu de arte. A arte faz-nos descobrir coisas novas, coisas que desconhecíamos. E, ao mesmo tempo, também fala de coisas que já conhecíamos, quando exprime – até melhor do que conseguiríamos – aquilo que intuitivamente já sentíamos. Na arte há um valor formal e estilístico inalienável, mas, mais que isso, a arte tem a força de lidar com toda ou qualquer uma das intermináveis séries de sentimentos e experiências que beneficiam, inflamam, favorecem, aterrorizam, atormentam ou supliciam a humanidade.
A arte apreende e expressa ideias sobre a vida. E não apenas sobre a vida compreendida como aquele mínimo de necessidades biológicas necessárias, mas sim sobre a vida na sua profundidade e sentido. Por ser expressão de uma história, por ser imagem, por ser reflexo de uma experiência, a arte remete para outra coisa: o significado das coisas. A obra de arte é tão mais feliz quanto maior for essa identificação com a experiência humana. Por isso não é estranho olharmos para uma obra de arte e vermo-nos a nós mesmos.
A arte liga as pessoas, irmana aqueles que estão ligados a uma obra, pois estão ligados a uma experiência comum. A igualdade que a arte gera abraça a diversidade e a inclusão, mas vai mais longe, porque tem a força do que a todos identifica: os mais profundos anseios e desejos do coração.
Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural