“Façam toda a paz e amizade que puderem”

quadro com santos

Esgotados os caminhos da política, da lei, da ordem e da justiça, a Misericórdia nasce como resposta à falta de paz.

Os dedos não chegam para contar o número de acontecimentos decisivos que se deram em menos de vinte anos. O fim do século XV foi pontuado pelo reinado de D. João II, entre conspirações de alta-leva, os cada vez maiores avanços da expansão marítima, intensas relações com os Reis Católicos, o tratado de Tordesilhas, a morte do filho adorado e a nomeação do primo, D. Manuel, como sucessor. Quando, em Outubro de 1495, D. Manuel é aclamado rei, entre todo o expediente herdado três empreendimentos sobressaíam: casar, expulsar os judeus e chegar à India.

Para chegar à India, D. Manuel seguiu e actualizou o plano deixado pelo primo. Vasco da Gama parte em Julho de 97 e quando entra no Tejo, em Setembro 99, um novo livro da expansão começava a ser escrito. Mas a vitória sobre o mar e o desconhecido não traziam só grandeza de alma e prosperidade. Com os homens no mar, famílias em terra padeciam da ausência. A própria expedição de Vasco da Gama é disso testemunha: o almirante avançou para a Índia na companhia de 147 homens, mas a Lisboa só regressaram 55. Multiplique-se o exemplo pelas carreiras marítimas já estabelecidas e pelas novas expedições em curso e acrescente-se à “fama e glória soberana” a viuvez e a orfandade.

Quanto aos outros empreendimentos de D. Manuel, com Castela resolveu-se o casamento, mas a um preço que o rei não queria pagar: a expulsão dos judeus e dos mouros. Há algum tempo que os Reis Católicos insistiam que Portugal seguisse o seu exemplo, mas sem sucesso. O casamento de D. Isabel de Aragão com D. Manuel obrigou a decisão.

Os judeus pertenciam à sociedade e muitos eram até apreciados na corte. Mais não fosse, o seu conhecimento, as suas técnicas e o seu capital desempenhavam um papel importante na prosperidade portuguesa de quatrocentos. Mas nem toda a Igreja era simpática à sua presença em Portugal e o povo não era tão tolerante quanto o rei, pois os judeus refugiados de Castela (1492 em diante) tinham sido motivo de confusão em várias localidades.

Para tentar evitar a expulsão, em Dezembro de 96 D. Manuel determina que os judeus tinham de se baptizar, ou então enfrentar o desterro. Deu-lhes dez meses para se converterem, mas o rumo das coisas escapava das mãos do rei enquanto grande número de judeus escapava do país. Foi então que D. Manuel mandou fechar os portos aos judeus, deixando-lhes apenas Lisboa. Aí, mais de vinte mil judeus se foram amontoando, na esperança de conseguir passagem para outros lugares. Em Abril de 97, o rei manda entregar as crianças judias a famílias cristãs. Seguem-se meses de desordens várias, suicídios entre os judeus e baptismos à força – e logo surgem em Portugal os marranos: judeus que continuavam as suas tradições às escondidas, enquanto às claras se professavam cristãos.

“In the course of justice, none of us should see salvation: we do pray for mercy”

De Xabregas, assistia a todos estes acontecimentos D. Leonor. Irmã mais velha de D. Manuel e viúva de D. João II, D. Leonor tinha ido assentar paço a Xabregas, onde podia estar mais afastada e assim dedicar-se ao recolhimento e piedade que tanto estimava; ao mesmo tempo que estava suficientemente perto da cidade, para praticar obras de caridade e acompanhar o irmão – há quem diga que o rei nada fazia sem consultar a irmã.

Herdeira de grande fortuna e mulher muito letrada, D. Leonor havia vivido alguns dos momentos mais auspiciosos da história. Pela sua corte passaram os melhores do seu tempo, entre poetas, homens da ciência ou mercadores. Pensa-se que terá sido a mercadores genoveses que ouviu contar sobre irmandades de leigos que, pela Itália, se formavam para assistir à caridade.

Em Março de 1498 D. Manuel tem de ir a Castela e a Aragão e deixa a regência a cargo da irmã. Quando em Outubro o rei regressa, encontra instituída a Irmandade da Misericórdia de Lisboa. Não sabemos se a ideia havia sido combinada com D. Manuel. Apenas sabemos que em Agosto a Rainha instituiu a obra.

E para quê uma Irmandade da Misericórdia? Às carências que viviam parte da população por causa da expansão marítima, soma-se o sobressalto e mal-estar que a questão dos judeus causou na sociedade e no seu quotidiano. D. Leonor intuía aquilo que Shakespeare mais tarde melhor sintetizou: “In the course of justice, none of us should see salvation: we do pray for mercy” (O Mercador de Veneza, Acto IV, Cena I). Esgotados os caminhos da política, da lei, da ordem e da justiça, a Misericórdia nasce como resposta à falta de paz.

Um Compromisso para a paz e amizade

Para que a acção não perdesse de vista o espírito, redigiram-se umas orientações: o Compromisso. Este documento, que foi subscrito pelos Irmãos da Irmandade, aprovado pelo Rei e confirmado pelo Papa, não se configurava tanto como um regulamento. É certo que nele se dispunha sobre temas de natureza organizativa – a nomeação do Provedor e Secretário da Irmandade, questões sobre os dinheiros, etc. –, bem como sobre questões da natureza prática da acção – como visitar um preso, como dar esmolas, etc. –, mas sempre acompanhadas por pistas que ajudavam a “carregar no coração um pouco da miséria do outro” (Agostinho de Hipona, Sermão 358/A, I).

O Compromisso não se encerra em uns estatutos, ou meia dúzia de regras que devem ser atendidas no momento de agir, e vai mais longe. O Compromisso está para a Misericórdia como a Constituição está para o Estado – é uma magna charta da sua vida institucional, um documento que guarda, mas sobretudo que inspira e anima a acção.

A Misericórdia de Lisboa nasceu como resposta a um momento tumultuoso da sociedade. A sua permanência ao longo dos últimos 522 anos respondeu a outros tumultos, mas, e acima de tudo, com o seu Compromisso, o seu trabalho quotidiano, incontáveis serão aqueles que evitou. Está escrito numa das versões do Compromisso “façam entre os irmãos e outras pessoas toda a paz e amizade que puderem”. Nunca saberemos medir quanta paz e amizade a Misericórdia trouxe e traz à nossa sociedade.

Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural