Epigrafia, ou o passado que nos quer falar

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

Ao iniciar a visita ao Museu de São Roque, logo depois dos quatro painéis quinhentistas da vida deste santo, que outrora avultavam no retábulo da antiga ermida que há cinco séculos existiu onde está hoje a igreja que lhe é consagrada, o visitante depara-se com duas enigmáticas lápides, escritas numa linguagem que – aparentemente – não nos é familiar. Antes do eclodir da epidemia de Covid-19, quando o contexto permitia concentrar uma turma inteira à volta delas, alguns alunos em visitas de estudo eram (provocatoriamente) desafiados: “Vocês já têm idade suficiente para saberem ler português. Isto está em português, então leiam.” As sobrancelhas franziam e os olhares estupefactos, a jorrar curiosidade, olhavam incrédulos para as duas lápides. Numa época em que praticamente toda a gente sabe ler, aos jovens estudantes parecia impossível que se olhasse para um texto, alegadamente escrito em língua portuguesa, e não se conseguisse perceber o que diz. Com efeito, é necessária uma chave. Essa chave é a Epigrafia.

Estamos acostumados a conseguir ler com alguma rapidez e, mais do que isso, estamos muito acostumados a letra datilografada, cronologicamente situada a séculos de distância dos caracteres góticos que nestas lápides se vêem. Por isso, observando-os, a primeira impressão é que não somos capazes de os descortinar. Mas, cativando o observador não familiarizado com a Epigrafia a ler com calma, lenta e pausadamente, constatar-se-á que esta escrita está muito mais próxima de nós do que um olhar incauto levaria a crer.

Diz assim uma das duas lápides, visível na imagem que acompanha este texto:

«Adro da peste co[n]sagrado p[er] ma[n]dado del rej noso S[enh]or e[m] xxiiij (24) de majo de j bc xxbij (1527) p[ol]o b[is]po do[m] a[m]brosio co[m] i[n]dullge[n]cias»

Este adro da peste era um cemitério que se encontrava no local onde hoje se implanta o museu, destinado a sepultar os mortos nos surtos de peste bubónica que assolavam a cidade de Lisboa. Uma preocupação com uma doença epidémica… Parece que não está assim tão distante de nós! No aparentemente longínquo ano de 1527, quando reinava D. João III, esta preocupação era de tal maneira importante que alguém entendeu que devia ser gravada numa pedra, de modo que hoje, perto de meio milénio volvido, ainda permaneça registada. E é justamente este o objeto da ciência da Epigrafia: o estudo e interpretação de inscrições em materiais não perecíveis como, neste caso e em muitos outros, a pedra, que foram selecionados pela sua natureza duradoura, de modo que a memória se preservasse pelos séculos seguintes.

Pode parecer uma prática distante de nós, mas esta constatação não poderia ser mais superficial. Ainda hoje, quando se inaugura um monumento, o descerrar de uma placa comemorativa é parte integrante da cerimónia. Infelizmente, tem-se vindo a perder o uso da pedra gravada a favor do acrílico impresso, que não oferece as mesmas garantias de perenidade. Certamente que um texto comemorativo de uma inauguração impresso num bloco em acrílico não ficará preservado durante 500 ou mais anos, da mesma forma que esta lápide resistentemente preservou a memória da “inauguração” do adro da peste.

O exemplar epigráfico mais famoso do mundo excede em quatro vezes a idade desta lápide. Trata-se da Pedra de Roseta, pertencente ao Museu Britânico, onde é um dos objetos mais conhecidos da coleção. Feita em 196 a.C., apresenta o mesmo decreto escrito em três linguagens diferentes – demótica, grega e hieroglífica – cuja decifração, no início do século XIX, pouco depois da sua descoberta, foi fundamental para a compreensão dos antigos hieróglifos egípcios e para o desenvolvimento da egiptologia. De uma forma paralela, a Epigrafia traz-nos dados essenciais para a compreensão do património da Santa Casa – e do património histórico em geral – revelando-nos dados históricos de grande valor.

Tendo isto em mente, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa procura estudar e valorizar o seu espólio epigráfico. Em 2006 saiu o primeiro estudo sistematizado das epígrafes existentes no seu património religioso, da autoria de Filipa Gomes do Avellar e publicado na obra Património Arquitetónico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, sob coordenação editorial de Teresa Freitas Morna e Helena Alexandra Mantas. Para quem procura informação mais detalhada, esta publicação – cuja leitura se recomenda ao interessado em Epigrafia – pode ser consultada na Biblioteca da Santa Casa, ao Largo Trindade Coelho, ou adquirida online em http://lojadacultura.scml.pt. E, de facto, mesmo depois deste estudo pormenorizado, onde se procedeu ao recenseamento das epígrafes existentes em São Roque e em São Pedro de Alcântara, a Epigrafia continua a trazer algumas surpresas no património da Santa Casa. Em 2014 quando, pela primeira vez em muito tempo, se abriu a cripta da capela-mor do Convento de São Pedro de Alcântara, edificado no final do século XVII pelos Marqueses de Marialva, foi descoberta uma lápide epigrafada a cobrir o pequeno corredor que liga a capela-mor à câmara da cripta propriamente dita. Trata-se de uma antiga tampa de sepultura, da primeira metade do século XVI, trazida de um local que se ignora e ali reaproveitada. A importância da Epigrafia também é explorada nas atividades desenvolvidas pela Cultura Santa Casa, pesem embora as limitações impostas pelo atual contexto. Por exemplo, o peddy paper Mistérios em São Roque, destinado a famílias com crianças, parte precisamente das duas enigmáticas inscrições referidas no começo deste texto. Crianças e jovens são desafiados a descodificá-las com a ajuda da família, e a partir daí descobrir as pistas para o passo seguinte.

Da próxima vez que entrar num monumento histórico, seja a Igreja de São Roque ou outro, não se detenha apenas a apreciar a pintura e a escultura, ou a deleitar-se perante a talha dourada e os azulejos. Pare e atente bem nas inscrições que surgem nas pedras do chão e das paredes. Procure ler o que dizem, pois elas destinam-se a si e a todos aqueles que, ao longo dos séculos, por ali passaram. Escute bem o que lhe dizem essas pedras. É o passado que lhe quer falar.

André Martins da Silva, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural