Do beijo ao imaculismo: uma pintura dos avós de Jesus

Nesta pintura, tal como nas suas histórias, Joaquim e Ana cedem o seu protagonismo para guardar e anunciar a história da sua filha e do povo que nela confia.

 

Quem entra pelo corredor do primeiro andar do Museu de São Roque, logo encontra uma pintura que não é de imediata interpretação. Entre uma estrutura arquitectónica de paredes sóbrias encimadas por arco, dois anciãos, ajoelhados e em modo de piedade, elevam a cabeça para a figura de uma menina envolta em nuvens e ladeada por pequenos anjos. Dos peitos dos anciãos brota uma corrente de rosas que serve de peanha à menina. Os anciãos dão-se pelo nome de Joaquim e Ana e a menina pelo de Maria.

De gosto maneirista, este óleo sobre madeira, dos inícios do século XVII e de autor desconhecido (ainda que se alvitre ser do círculo de Fernão Gomes), está longe de ser uma representação inédita, pois havia sido um motivo apreciado na primeira metade do século XVI –basta ir até onde saloios se encontram com ribatejanos, para, na Matriz da Arruda dos Vinhos, encontrar uma representação com estrutura e elementos semelhantes; Diogo Contreiras terá executado três pinturas diferentes deste tema; Arte Antiga guarda uma interpretação de Gregório Lopes; entre outros exemplos. Ainda assim, esta não é a representação mais comum de São Joaquim e de Santa Ana, pais da Virgem Maria, avós de Jesus Cristo, celebrados pela Igreja ao 26 de Julho e, por isso, dia dos avós.

No Ocidente, a devoção a Santa Ana e São Joaquim surge entre os séculos VII e IX, difundindo-se com timidez. Só com o Papa Gregório XII, em 1584, se instituiu a comemoração destes santos: Ana a 26 de Julho, Joaquim a 20 de Março –para depois, em 1788, passar a ser comemorado no domingo da oitava da Assunção de Nossa Senhora; em 1913 para o 16 de Agosto; e depois de 1965 ser evocado na mesma data de Ana.

A constante mobilidade da data comemorativa de São Joaquim dá sinal da discrição a que este foi fadado. Santa Ana teve maior protagonismo e a ela se dedicaram devoções variadas: por ser a matriarca da família, é a padroeira das mães de família e das viúvas; por ter ensinado Maria a ler, é padroeira dos estudos científicos e da catequese, dos professores e oradores; por ter ensinado Maria a cuidar do lar, é padroeira dos ofícios domésticos, mas também das bordadeiras, dos fabricantes de tecidos, dos tecelões e dos alfaiates; por ter guardado a jóia mais preciosa da Igreja, apadrinha mineiros, ourives e os funcionários da Casa da Moeda, entre tantas outras devoções, num sem fim de carinho que os povos ocidentais lhe dedicaram, tão próprio do carinho devotado às avós.

Mas a história de Ana só se compreende com a de Joaquim. Já de idade avançada, os dois decidem entregar-se um ao outro. Como não conseguiam ter filhos, Joaquim, homem rico e que procurava um herdeiro a quem deixar os seus bens, decide fugir para as montanhas vizinhas de Jerusalém. Arrependido, Joaquim muda de ideias e volta à cidade. Encontra Ana junto à Porta Dourada. Beijam-se e ficam juntos para sempre. Desta história encontramos registo pormenorizado e bem mais romântico no Proto-Evangelho de Tiago (um escrito apócrifo, talvez do século II, onde se passaram a letra de forma um conjunto de histórias da cultura oral das primeiras décadas da nossa Era), bem como em inúmeros elementos da tradição cristã oriental. Quando Giotto, em 1306, na Capela dos Scrovegni (Pádua), representou a cena do beijo de Joaquim e Ana, eternizou o momento para este lado do mundo.

É nesse contexto que se enquadra a pintura em apreço neste texto. A estrutura arquitectónica encimada por arco é a Porta Dourada de Jerusalém. O alongamento espacial da arquitectura remete para uma ideia de profundidade, eternidade. Centrados nessa profundidade, São Joaquim e Santa Ana vivem o encontro dos esposos com devoção e mistério. Dos seus corações brotam elementos vegetalistas, sinal de fertilidade. Os elementos vegetalistas são rosas, aparelhadas em forma de corrente, enquadrando esta representação na devoção do Rosário de Nossa Senhora. Como uma árvore genealógica invertida, a corrente de rosas eleva-se até uma muito jovem e cândida Maria, que no meio de uma nuvem está ladeada por seis anjos.

Após a cisão protestante e o Concilio de Trento (1545-1564), a Igreja empreendeu todos os seus esforços na educação da doutrina. Este esforço catequético saído de Trento persistiu até ao século XIX. E por isso, desse período, é mais comum encontrar representações de Santa Ana a ensinar Nossa Senhora a ler, ou somente de Santa Ana com um livro na mão ou por baixo do braço. Então, porquê optar, cinquenta anos após Trento, por outra representação? Não temos registos do que terá motivado o autor, mas propomos uma possível chave de leitura.

Segundo algumas tradições, o beijo de Joaquim e Ana junto à Porta Dourada teria sido o momento da concepção de Maria, nada mais sendo necessário para que Ana ficasse de esperanças. Estamos, portanto, diante de uma imagem difusora do culto da Imaculada Conceição.

Depois da conquista de Lisboa, o Senhor D. Afonso Henriques mandou celebrar uma Missa de acção de graças em honra da Imaculada Conceição. Depois da Batalha de Aljubarrota, D. Nuno Álvares Pereira prestou tributo à Senhora Imaculada, construindo-Lhe, em Vila Viçosa, a igreja de Santa Maria do Castelo. Duzentos anos mais tarde, quando reinavam em Portugal reis espanhóis, o povo voltou-se para o seu eterno amor e garante da independência. Em 1590, na freguesia dos Anjos (Lisboa), instituiu-se uma confraria em honra à Senhora da Conceição. Logo nascem, por todo o país, iniciativas semelhantes, num movimento maior pelo reforço do culto à Imaculada Conceição, que se estende do início de seiscentos – período da pintura em apreço – até 1646, quando, em plena Guerra da Restauração, D. João IV coroa a Senhora da Conceição padroeira e Rainha de Portugal.

A História é muitas coisas ao mesmo tempo. Nesta pintura, tal como nas suas histórias, Joaquim e Ana cedem o seu protagonismo para guardar e anunciar a história da sua filha e do povo que nela confia.

 

Encontro de São Joaquim e Santa Ana na Porta Dourada
Óleo sobre madeira
Início do século XVII
Autor desconhecido do círculo de Fernão Gomes
72×55 cm
Museu de São Roque, inv.º 228

 

Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural