De curiosos para curiosos: miúdos no museu.

À volta do Património da Santa Casa

Trabalhar no serviço educativo de um museu tem dois grandes desafios: 1) descobrir como os anseios humanos – o desejo de justiça, de bem, de verdade, de amar e ser amado – falam através da história e da arte e 2) discernir como a beleza nos ajuda a tornar mais conscientes de nós próprios.

Quando as crianças vêm ao museu, o nosso trabalho fica facilitado. É que nos miúdos estes anseios parecem ter sido deslocados do coração para a boca e a beleza espanta-os com uma naturalidade invejável.

As crianças têm muitas perguntas, tudo é simples e motivo de curiosidade. A nós só nos cabe acompanhá-las, conduzir o seu olhar e arriscar algumas pistas de resposta. Diante de uma pintura, de uma escultura, de uma história, de uma ideia, é mais visível num miúdo (do que em nós adultos) a cativante possibilidade de conhecimento. Livres do preconceito, as crianças ensinam-nos o fascínio pelo que não sabem, pelo mistério. Se matamos o mistério, apressando-nos a explicar com muita competência todas as suas perguntas e dizendo-lhes o que devem pensar sobre cada uma das obras, matamos a relação dos miúdos connosco e – muito pior – matamos a relação dos miúdos com a arte. A curiosidade é o nosso chão comum e se damos cabo dele deixamos de ter onde nos sustentar.

A arte é obra de curiosos para curiosos. E os miúdos, em geral, são muito curiosos. Na sua etimologia latina, curiosidade deriva de cura. A curiosidade solicita uma preocupação, um cuidado. O curioso é aquele que se importa com alguma coisa, porque essa coisa o pode curar. Investigar, descobrir, conhecer, perguntar, são uma hipótese de cuidado para com nós próprios. E não um cuidado assente somente na técnica ou na ciência – se assim fosse, este cuidado só seria possível num amanhã mais avançado–, mas sim na interrogação sobre todos os fatores da vida.

Desconfio que é a interrogação revelada na arte o que fascina os miúdos. Para as crianças a arte desponta sob a forma de pergunta, de exigência de resposta, de significado. E desconfio que esse é também o motor dos artistas – mesmo dos mais rebeldes, ou principalmente dos mais rebeldes.

Nos artistas é visível que a existência é proposta de trabalho e a sua tarefa específica são perguntas. Entre o talento natural, o esforço de superação, a habilidade formal e a interrogação sobre o mundo, o artista empenha-se por dar forma poética à realidade. Aquela realidade visível, mas, acima de tudo, a realidade indizível: os anseios do coração, as elevações do espírito, o mistério das coisas. Animada pela verdade das coisas e pelo amor que as une, a arte nasce da riqueza interior do ser humano, pois no artista manifesta-se este desejo de viver a experiência humana em toda a sua largura e profundidade, em toda a sua verdade.

A verdade é em si mesma beleza pura e fonte inesgotável para quem quer fazer coisas belas. Tal como as crianças no museu, quanto mais curiosos pelo que nos rodeia, melhor entramos na verdade das coisas – tornamo-nos mais conscientes. A embriaguez tem os seus apelos, mas a vida consciente revela-se mais interessante. Vive-se mais contente.

Bernardo Cardoso

Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural