Da demanda do Preste João das Índias à missionação da Companhia de Jesus
Para muitos o Império Português foi um dos maiores enigmas da História. Portugal foi o primeiro e o último Império da Europa Ocidental.
Quando o comércio Mediterrânico era dominado por venezianos, genoveses, catalães e árabes, Portugal lançou-se no oceano atlântico com a melhor construção naval e artilharia da Europa e com os astrolábios e cartografia que herdara dos mesmos árabes, mas também de judeus.
Em 1552, o cronista espanhol Francisco López Gómara descreveu os descobrimentos ibéricos das rotas oceânicas das Índias Ocidentais e Orientais como “o maior acontecimento desde a criação do mundo, depois da encarnação e da morte d’Aquele que o criou”. Na verdade, os descobrimentos e expansão dos Portugueses e Espanhóis quebraram com a dispersão e isolamento das várias sociedades humanas e uniram a grande família humana. Como afirma C.R. Boxer, na esteira de muitos outros, eles foram os primeiros a tornarem a humanidade, ainda que vagamente, consciente da sua unidade essencial.
Todas as aventuras anteriores não mudaram tanto a face da terra. Desde os irmãos Vivaldi, genoveses que se perderam no Cabo Não, na costa Marroquina, aos Chineses e Japoneses que foram ocasionalmente arrastados por tempestades para as costas americanas, viagens que chegaram às orlas do Canadá.
Os relatos de Marco Polo e de outros viajantes não eram levados tão a sério como a lenda do Preste João. Assim, historiadores discordam quanto às respostas a dar àquele primeiro enigma de que falámos, mas são conhecidas por todos razões seculares unidas às religiosas, para que, em particular os portugueses, tenham sido os primeiros a chegar a Oriente por circunavegação, dobrando todos os cabos desconhecidos ou temidos.
O impulso da cruzada empreendida com a conquista de Ceuta em 1415 e a procura do ouro da Guiné foram empolgados pela demanda desse reino cristão que detinha o poder nas “Índias”. No século XV, o termo “Índias” era vago, identificando-se com terras misteriosas e desconhecidas a leste e sudeste do Mediterrâneo. Preste João – que a cosmografia europeia medieval situou na Abissínia, nas terras altas da Etiópia – era, para todos os efeitos, o rei-sacerdote cristão que seria um aliado inestimável contra os muçulmanos e no domínio da Ásia.
Tal ideal de cruzada, mais racionalista, presidiu aos alvores da fundação da Companhia de Jesus que foi uma das entidades a encomendar algumas das obras de arte miscigenadas da Coleção de Arte Oriental do Museu de São Roque, que em grande parte são de índole religiosa.
A Companhia de Jesus, fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola (1491-1556) e aprovada pelo Papa Paulo III em 1540, protagonizou, juntamente com os exploradores e conquistadores portugueses e espanhóis, o primeiro processo de globalização. A Companhia surgiu logo após as primeiras grandes viagens de Descobrimentos, tendo sido o monarca português D. João III que lhe abriu as portas do novo mundo, enviando São Francisco Xavier para a Índia, em 1541.
Segundo os ditames do Fundador da nova ordem, os Padres Jesuítas deveriam ter uma longa e forte formação intelectual e espiritual que lhes construísse uma mente rica e uma vontade forte, baseada no amor à “Maior Glória de Deus” e à Companhia. A ideia de que, na missionação, estavam unidos em espírito criou apóstolos capazes de atuar sozinhos em qualquer lugar do mundo, mesmo nos lugares mais adversos e inóspitos.
Os Jesuítas com esta formação e este carácter indomável geraram um conhecimento intercivilizacional ao coligir dados sobres os povos e culturas do mundo, através de uma estratégia adaptacional, muito criticada por outras ordens, até haver o distanciamento suficiente para o valorizar.
Segundo Eduardo Franco, os missionários jesuítas conheceram a diversidade das culturas humanas e empenharam-se em estudá-las, obrigando-se a rever conceitos, linguagens e métodos, e até a arquitetura de templos, com vista à maior eficácia da evangelização.
Assim como Roberto Nicoli (SJ) (1577-1656) foi ao ponto de se vestir ao modo dos saniases – ascetas dedicados à meditação no Malabar – imprimir na testa um distintivo triangular de sândalo, calçar sandálias de madeira e viver numa cabana adotando a dieta vegetariana daqueles eremitas indianos, assim também a arte que os jesuítas encomendavam para as suas liturgias e culto eram elaboradas por artistas das localidades onde andavam, com as suas técnicas, materiais e expressão, tão exóticos o para o Ocidente, ainda hoje.
A coleção de arte oriental do Museu de São Roque é testemunho do maior Encontro de todos os tempos.
Mónica Brito, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural