António: eloquência e caridade

Pedro Machado de Brito, figura de quem muito pouco sabemos, destinou que para sua sepultura se havia de construir uma capela na Igreja de São Roque. Para isso deixou testamento e como testamenteira a Irmandade da Misericórdia de Lisboa – tal capela transporta a curiosidade histórica de ter sido a primeira propriedade da Misericórdia naquele lugar (c. 1635), para mais tarde todo o lugar ser sua propriedade (alvará régio de D. José, 1768, nove anos após a expulsão da Companhia de Jesus).

O lugar da capela, a traça da mesma e a quem havia de ser dedicada foram assuntos para acordo entre a Companhia e a Misericórdia. Planeado que a capela havia de ser a segunda do lado do Evangelho, a mesma foi adornada segundo a traça das demais capelas da igreja. Porém o Terramoto condenou-a a mudar de adornos – a igreja de São Roque pouco sentiu os efeitos do dito, mas a sua torre sineira instituía-se num corpo independente, menos estável, que ruiu, tendo caído em cima da capela onde jazia Machado de Brito e seus familiares.

Ao conjunto original somaram-se duas campanhas de obras, entre os finais do século XVIII e XIX. A última para dar ao teto uma pintura a têmpera segundo esquema neoclássico, que casa bem com o primeiro terço das paredes laterais, forrado a azulejos em ponta de diamante e madeira imitando mármores embutidos. Nos restantes dois terços de parede, encontramos duas grandes pinturas alusivas à vida do patrono da capela, enquadradas por molduras de talha e querubins encarnados. Querubins que se juntam a outros tais e a anjos policromos da parede central, esculpidos na talha barroca, ora mais antiga, ora mais tardia, entre colunas, pilastras, rendas, sotobanco e tímpano, com acantos e elementos vegetalistas cravejados em tudo quanto há. Ao centro, em escultura maneirista estofada e policromada, preside o patrono: Santo António de Lisboa, de Pádua e do mundo.

Tal devoção em São Roque, num primeiro impacto, destoa do programa catequético da igreja. Ainda que não se conheçam registos do motivo de tal opção, é possível intuir a sua pertinência. A Companhia, desde a primeira hora, muito se dedicou ao estudo, ao conhecimento e à razão; a par disso, onde assentou sempre procurou ir ao encontro da cultura local. Já a Misericórdia de Lisboa dedicava-se – dedica-se – à caridade e tinha em Fernando de Bulhões o homem modelo do seu ideal (ainda para mais nascido às portas da sua primeira sede).

Dessa relação dão sinal as oito pinturas da capela. As duas principais, da autoria de Vieira Lusitano (1699-1783), retratam “Santo António pregando aos peixes” e a “Tentação de Santo António e Visão da Virgem”. A elas se juntam, no intradorso do arco, outras seis pequenas pinturas em cartelas – de autor desconhecido, mas que alguns entendidos apontam a António Pereira Ravasco (1665-1712) –, com cenas da hagiografia de António: milagre do recém-nascido, milagre do coração avarento, milagre da perna cortada, Santo António com o Menino, milagre da mula e tema desconhecido (em que António é representado a abençoar uma mulher prostrada a seus pés).

Santo António (1195? -1231) cedo despertou para Deus e ainda jovem ingressou no Mosteiro de São Vicente de Fora, para ser Cónego Regrante de Santo Agostinho. Depois rumou a Santa Cruz de Coimbra, para completar os estudos – Santa Cruz de Coimbra era o coração intelectual do Reino e só na sua biblioteca contava com mais de 500 volumes manuscritos (número que, à época – pré-imprensa –, era absolutamente prodigioso). À sua muita eloquência, António aliava uma enormíssima simplicidade. Foi em Coimbra que soube do carisma que nascia pelas mãos de Francisco de Assis. De imediato mudou de vida e depois de algumas peripécias chegou a Itália e conheceu o fundador mendicante.

Francisco não queria que os seus homens estudassem, pois temia que perdessem a humildade. Quando conheceu o Irmão António logo mudou de ideias e determinou que este havia de instruir os franciscanos. Ao mesmo tempo, encarregou-o da pregação junto dos cátaros e outros hereges.

Os cátaros viviam segundo uma ideologia de inspiração cristã, mas nada católica (por serem moralistas causavam grande mau estar nas terras onde se instalavam; eram contra a procriação; só comiam fruta, ou peixe, por ter sido o único animal que sobreviveu ao dilúvio; entre outras). Eram numerosos no sul de França e norte de Itália e tinham grande preparação intelectual, por isso Francisco entendeu que António era o homem certo para os converter. De facto, a sua eloquência era de tal prestígio que em 1946 o Papa Pio XII declarou Santo António Doutor da Igreja (em dois mil anos de história, este título só foi dado a 36 pessoas).

O Sermão aos Peixes e o milagre da mula – duas das cenas representadas na nossa capela – aconteceram na cidade cátara de Rimini. Os cátaros não ouviam António, mas quando viram os peixes a escutá-lo logo repensaram a sua vida. Os cátaros não acreditavam na Eucaristia, mas aquando do desafio lançado por um líder cátaro (depois de aceso debate), viram a mula faminta preferir ajoelhar à eucaristia do que matar a fome no alguidar de trigo, logo se converteram.

Se os seus dons de sabedoria e palavra a tantos serviram de ajuda – coincidência ou não, a sua língua permanece incorrupta entre os seus despojos mortais –, também a sua caridade a muitos contagiou. Na capela da Igreja de São Roque, a essa dimensão dão nota, por exemplo, as pinturas relativas ao milagre do recém-nascido – a mãe estava em severo tormento por não saber quem seria o pai da criança; António fez falar o recém-nascido para que este confessasse a paternidade e assim livrar a mãe da inquietação –, ou a da bênção de uma rapariga – alusão a todas as moças a quem António protegeu, por exemplo instituindo irmandades que angariavam dinheiro para conceder dotes de casamento às raparigas pobres, evitando que estas tivessem de procurar alternativas injustas.

Por tudo isto e muito mais (as demais cenas representadas na capela ficam para uma visita guiada), Santo António é tão querido no mundo inteiro. A sua santidade, sabedoria, eloquência e caridade atraiu e atrai multidões. Em Portugal, está tão enraizado que dá nome a terras e ruas e é invocado em incontáveis oragos. É padroeiro do país (com Nossa Senhora da Conceição) e da cidade de Lisboa – onde dá nome ao mês de junho e é motivo das festas da cidade. Na Restauração foi feito Capitão do exército e nas invasões francesas Tenente-Coronel (também noutros países lusófonos fez carreira militar e no Brasil tem maior patente: general). Na piedade popular é invocado para encontrar objetos perdidos e pessoas desaparecidas; é patrono dos náufragos e dos marinheiros e também dos barqueiros; dos pescadores e agricultores, dos feirantes e animais, dos cavalos, dos burros e das mulas; protege os estudos e os estudantes; apoia os viajantes, casa as solteiras, cuida das estéreis e guarda as grávidas; apadrinha noivos e ampara casamentos. Está tão enraizado na vida dos portugueses que em muitas das suas casas tem lugar – e, como se uma criança fosse, quando não faz o que lhe dizemos é posto de castigo contra a parede.

Bernardo Cardoso, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural