Animalis, Natura e Arte
Desde os tempos mais remotos que a representação do mundo natural na Arte esteve tão intrinsecamente ligada à simbologia religiosa e profana que se torna cada vez mais difícil ao observador a interpretação das obras dos períodos que nos antecedem.
Identificar as espécies científicas das principais representações da natureza no património artístico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, acervo que compreende obras dos séculos XVI ao XVIII, de modo a interpretar o seu significado simbólico, o sentido iconológico da fauna e flora em obras como as pinturas seiscentistas e setecentistas do museu de São Roque, nos painéis de micro-mosaico da Capela de São João Baptista, dos azulejos quinhentistas da Capela de São Roque, ambas da Igreja e São Roque, aos azulejos setecentistas do Convento de Santos o Novo, ou do Convento de São Pedro de Alcântara, é o que pretendemos abordar nas Notas Soltas desta semana.
A vasta iconografia da Arte contém uma enorme variedade de representações da natureza com uma forte simbologia baseada em referências que remetem à antiguidade clássica, às obras religiosas e ao herbário medieval. A análise destas fontes literárias, como as de Carl Nilsson Linnæus (botânico, zoólogo e médico sueco), pai da Taxonomia moderna, ou a obra Johann Friedrich Gmelin, médico, naturalista, botânico e entomologista alemão que publicou no séc. XVIII o Systema Naturae de Lineu e dos variadíssimos estudos desenvolvidos neste campo, permitem-nos descobrir a simbólica compendiada da fauna e da flora, permitindo uma leitura descodificada das obras de arte. No Renascimento, o estudo minucioso destas fontes literárias e da própria natureza levou o artista a uma representação realista da flora e da fauna tirando partido das suas capacidades decorativas e da sua simbologia como referência metafórica aos atributos psicológicos do retratado.
A beleza natural e a fidelidade da representação realista levam o espectador a afastar-se da mensagem subjacente. O que à primeira vista pode parecer uma simples representação de natureza morta ou de paisagens pode esconder um complexo significado iconográfico.
A fauna apurada é predominantemente mediterrânica, mostrando que a introdução da fauna exótica não foi fulgurante durante o séc. XVII em Portugal, à semelhança do que se passava no resto da Europa. No séc. XVIII ocorre uma autêntica explosão de representação de fauna exótica na arte europeia e nomeadamente na arte portuguesa.
No Siglo d’Oro existiu uma forte tradição emblemática que explorou os valores da Contra-Reforma e estava particularmente bem representada no bodegón, tão difundido na Península Ibérica, e tão bem apreendido por Baltazar Gomes Figueira e a sua filha Josefa D’Ayala, conhecida como Josefa D’Óbidos.
O progresso científico e um novo olhar para a natureza, associado ao interesse da Igreja em defender os ideais contra-reformistas, levaram a que esta adotasse uma linguagem artística mais ligada à realidade e ao quotidiano, através de temas como paisagens, bodegones, floreros, cenas de caça, representação de animais e naturezas-mortas e a representação de animais que assumem uma função catequética.
A história da arte procurou incorporar a natureza no universo do simbólico ou divino, apresentando esta integração na escultura, na literatura, na música e na pintura. Do naturalismo fantástico das pinturas rupestres do paleolítico à inclusão das folhas de acanto nos capitéis antigos e medievais, culminando no simbolismo iconográfico da arte sacra dos séculos XVI ao XVIII, as plantas assumem um interessante protagonismo na linguagem simbólica da arte. Partindo da compreensão de que as representações das plantas que encontramos nas pinturas das coleções da SCML, compõem toda uma linguagem simbólica que se associa às personagens representadas numa associação de significados e significantes. Desta forma, a planta representada e integrada nas representações pictóricas ou escultóricas é também parte da mensagem da obra ao mesmo tempo que é toda a mensagem iconográfica.
Nas pinturas sacras a transfiguração da planta num símbolo de matriz iconográfico com um sentido intrínseco ou conteúdo, permite que o artista assinale na obra a mensagem do programa iconográfico encomendado, ao mesmo tempo que integra arte, natureza, símbolo e religiosidade. As tradicionais açucenas que encontramos nas pinturas, mas também em algumas esculturas de Maria ou Santos, como Santo António, transcendem a sua representação pictórica estética e tornam-se parte da narrativa iconográfica das obras.
Lilium candidum — açucena – associada a Maria (por exemplo nas Anunciações de Gaspar Dias ou no mosaico da Anunciação na Capela de São João Baptista, ambas na Igreja de São Roque.Lilium longiflorum — palma-de-São-José (Da Capela do Menino perdido ou sagrada Família, da Igreja de São Roque)
Como tratámos no caso da fauna, também na flora, os artistas transformam-se em criadores de uma importante ilustração científica, quando representam por exemplo a “palma da vitória” na representação iconográfica de um mártir ou na entrada triunfal em Jerusalém, em personagens santificadas ao mesmo tempo que denunciam relevância técnica na fiel representação da Phoenix Dactylifera L., nome técnico da mesma. No caso da fauna, com uma maior representação, podemos assim encontrar na coleção de pintura, escultura, azulejaria, ourivesaria, têxteis, e icro-mosaico, alguns elementos da Fauna cujo significado identificamos:
– Cordeiro (Ovis aries (Linnaeus, 1758)) – símbolo de Cristo e da sua Paixão. Animal Bíblico: (Jo 1: 29) Agnus Dei – Cordeiro de Deus
– Pomba-doméstica (Columba livia (Gmelin, 1789)) – símbolo do Espírito Santo. (por ex. no Batismo de Jesus)
– Cão-doméstico (Canis familiares (Linnaeus, 1758)) – símbolo da fidelidade. Animal Bíblico: (Mt 7: 6) (Tábuas de São Roque do séc. XVI, do Museu de São Roque, no painel de azulejos da Capela de São Roque de 1498, e na grande tela dos santos Mártires presentes ao Governador de Olissipo na Igreja do Convento de Santos o Novo)
Podemos ainda encontrar no painel de azulejo com a representação do Êxtase de São Pedro de Alcântara – Igreja Convento de São Pedro de Alcântara:
– Pintassilgo (Carduelis carduelis (Linnaeus, 1758)) – símbolo da Paixão de Cristo.
– Perdiz (Alectoris rufa (Linnaeus, 1758)) – símbolo do Diabo, do Mal ou Símbolo da Virgem Maria e da Igreja.
– Pato-real (Anas platyrhynchos (Linnaeus, 1758)) – símbolo de Felicidade, símbolo de Almas Bem-aventuradas.
– Amazona-de-fronte-azul, papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva ssp. aestiva (Linnaeus, 1758)) – símbolo de Pureza, símbolo de Inocência, um dos atributos da Virgem Maria.
– Galo-doméstico (Gallus gallus domesticus (Linnaeus,1758)) – símbolo da Paixão de Cristo. Animal Bíblico: (Jo 13: 38).
Em telas do Museu de São Roque, do século XVII, Caminho para o Calvário, encontramos o:
– Cavalo-doméstico (Equus caballus (Linnaeus, 1758)) – Animal Bíblico: (Ap 6: 1-8).
Nos painéis de azulejos da Capela do Senhor dos Passos do Mosteiro de Santos o Novo, nas Adorações dos Pastores do Museu de São Roque, de Gaspar Dias e De André Reinoso, no Museu e na Igreja de São Roque, encontramos o: – Burro-doméstico (Equus asinus (Linnaeus, 1758)) – Animal Bíblico: (Mt 21: 7).
O primeiro símbolo dos Cristãos é o peixe. Em língua grega, as iniciais das palavras que compõem a frase “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, resultam na palavra Ichthus, a palavra grega para “peixe”. Foi através desta forma que se julga ter nascido a associação simbólica do peixe ao cristianismo. Encontramos peixes no painel do Milagre da Noite de Natal, na Igreja do Convento de São Pedro de Alcântara, da espécie: – Dicentrarchus punctatus (robalo-baila) – simbologia geral do peixe como símbolo eucarístico e cristológico e simbologia análoga ao do peixe lúcio, ou seja, símbolo da luz divina.
Outro animal representado neste caso no retábulo de São Francisco Xavier, de André Reinoso, na sacristia da Igreja de São Roque, é o caranguejo que descobre na praia o crucifixo de São Francisco Xavier, após São Francisco tê-lo perdido em alto mar: – Dardanus arrosor (caranguejo) e Crangon crangon (camarão-mouro) – crustáceos são sinal da invulnerabilidade de Cristo. Muito provavelmente André Reinoso terá visto as Representações que Leonardo Da Vinci fez do caranguejo em diversas posições, para o representar na sua obra.
Do Património cemiterial pertencente á santa Casa da Misericórdia de Lisboa, podemos encontrar em alguns dos mais de 1500 jazigos sua propriedade, a representação de:
– Uroboro – Serpente que engole a própria cauda e simboliza um ciclo de evolução fechada sobre si própria. Este símbolo encerra ao mesmo tempo as ideias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, em consequência do eterno retorno.
– Colmeia/ Abelhas – símbolo da Ressurreição. O inverno (3 meses), durante a qual parece desaparecer pois não sai da sua colmeia, é comparado aos três dias em que o corpo de Cristo fica invisível após a sua morte, antes de Ressuscitar. Também simboliza a alma.
– Morcego – simboliza a noite, o sono eterno.
– Coruja – Ave noturna, símbolo do conhecimento racional – perceção da luz (lunar) por reflexo opondo-se ao conhecimento intuitivo – perceção direta da luz (solar). A coruja simboliza a reflexão que domina as trevas.
– Asas Pomba – Símbolo da libertação e da espiritualidade. Exprimem geralmente uma elevação em direção ao sublime, um impulso para transcender a condição humana
Tendo em conta a multiplicidade de animais e plantas representados nas obras de arte do património artístico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, quer no Museu e Igreja de São Roque, no Convento de São Pedro de Alcântara, no Convento de Santos o Novo, ou mesmo no Património Cemiterial, este é um breve levantamento e classificação da sua simbologia, bem como do seu significado.
Paulo Costa, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural