A Lisboa de D. João V – factos e curiosidades

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

Não há quem tenha alguma vez passado por baixo do Aqueduto das Águas Livres e que, detendo o seu olhar na imensidão da pedra, montada em arcos perfeitos, não tenha suspirado para si próprio “que grande obra!”. Tal como essa, outras mais são aquelas que o seu edificador deixou à cidade: Palácio das Necessidades, Capela de São João Baptista ou a Igreja do Menino Deus. Todas sobreviveram ao terramoto e nelas conseguimos ver o programa que animava D. João V. Não fora o fatídico 1 de novembro, e a vida seria pouca para olhar em detalhe todas as preciosidades mandadas construir pelo Magnânimo.

O reinado de D. João V, tal como a história o atesta, foi desde o início marcado por uma forte linguagem visual, reveladora do luxo e opulência típicos da era absolutista.   Durante os 43 anos do seu longo reinado procurou, como qualquer monarca, fortalecer e afirmar o prestígio internacional do seu reino. Para além do papel relevante na política nacional e mundial, D. João V foi um grande investidor e consolidador da cultura e património arquitetónico.

Se as grandes obras, com os seus requintados interiores, são motivo mais comum de conversas sobre D. João V, outros aspetos do seu quotidiano, não menos aparatoso e opulente, andam mais escondidos. Neste texto, damos a conhecer detalhes de dois exemplos: a cerimónia de aclamação do Rei e algumas beneficiações de aparato à procissão do Corpo de Deus.

 

Cerimónia de aclamação

Como sustenta Veríssimo Serrão: “(…) era senhor de uma vasta cultura, bebida na infância com os Padres Francisco da Cruz, João Seco e Luís Gonzaga, todos da Companhia de Jesus. Falava línguas, conhecia os autores clássicos e modernos, tinha boa cultura literária e científica e amava a música. Para a sua educação teria contribuído a própria mãe, que o educou e aos irmãos nas práticas religiosas e no pendor literário (…) logo na cerimónia de aclamação se viu o Pendor Régio para a Magnificência. Era novo o cerimonial e de molde a envolver a figura de Dom João V no halo de veneração com que o absolutismo cobria as realezas”.

D. João V subiu ao trono de Portugal a 1 de janeiro de 1707, numa cerimónia de juramento em que participaram membros da monarquia e eclesiásticos. Segundo a descrição de D. António Caetano de Sousa, no ato de aclamação fez-se uso da arquitetura efémera construída para a cerimónia.

A arquitetura efémera em questão ocupava toda a largura do vão de 16 janelas da fachada do paço. A varanda estava magnificamente decorada com tapeçarias e ricos tecidos bordados, de várias cores. As colunas das galerias foram forradas de damasco carmesim com as bases de veludo da mesma cor. Panos de veludo verde com as armas reais bordadas a ouro e a prata caíam entre as colunas. O trono foi colocado debaixo de um dossel carmesim bordado a ouro com as armas reais. Foram igualmente expostas tapeçarias com as alegorias da Justiça e da Prudência, lembrando as virtudes próprias dos monarcas. D. João V encaminhou-se para o trono caminhando junto das grades da varanda “para que fosse visto pelo povo”.

Segundo os relatos oficiais, o rei estava “com opa real de tela de prata com flores de ouro, forrada de tela carmesim com as mesmas flores, vestido de veludo com abotoadura de diamantes, e no peito com o hábito da Ordem de Cristo em uma venera também de diamantes de grande valor, espadim da mesma sorte, e no chapéu uma joia que prendia a aba dele, tudo peças de grandíssima estimação”.

Grande parte da varanda estava ocupada pelos ministros, pelo Cabido da Sé, por membros da nobreza e pessoas do Conselho do Rei entre outros. Também participaram dois regimentos de infantaria e o povo que se espalhava por todo o Terreiro do Paço.

 

A procissão do Corpo de Deus

Os rituais protocolares na época eram tidos como da maior importância mesmo que se tratasse de atos de devoção ou de autos de fé. D. João V converteu a procissão do Corpo de Deus num majestoso festejo religioso. Pôs de parte elementos de cariz popular e introduziu outros, realçando o luxo e a opulência do acontecimento. Segundo a descrição feita na época por Francisco Xavier da Silva: “O rei mandou armar com preciosas sedas todas as ruas por onde passava a procissão e cobriu-as de toldos de damasco. O chão estava forrado com ervas agradáveis ao olfato e também com vistosas flores. Fazia distribuir pelos moradores essências odoríferas que enchiam o ar de perfume. Ordenou que se levantasse no Terreiro do Paço, desde a parede do palácio real até à ponta do Arco dos Pregos, uma colunata de madeira lavrada e ornada de pinturas, dando maior gala à obra as excelentes figuras nos fingidos pórticos e as medalhas pendentes dos festões de seda adornados de ouro”.

A Câmara de Lisboa recebeu ordens régias quanto à limpeza e adorno das ruas de Lisboa para a procissão do Corpus Christi: “que todas as ruas por onde passar estejam muito limpas, com condenação a todos os que botarem nelas alguma coisa, na véspera ou no dia, ordenando-se aos moradores que tenham armadas as portas, janelas e paredes”. O itinerário era cuidadosamente preparado: “A procissão há de sair pela Campainha, Tanoaria, Calcetaria, buscar a rua dos Ourives do Ouro, Douradores, rua dos Escudeiros, Rossio, donde há de voltar pela rua das Arcas, por detrás da igreja de S. Nicolau, Correaria, Ourives da Prata e no fim há de voltar pela rua nova, arco dos Pregos e recolher pelo terreiro do Paço à patriarcal”. Este percurso religioso mostra-nos em detalhe o que era a Lisboa anterior ao terremoto.

Para nós, Santa Casa, é uma honra imensa guardar, preservar e expor ao público uma das joias mais preciosas do reinado de D. João V, a Capela de São João Baptista. Obra de arte italiana, de grande beleza e opulência, mandada construir pelo monarca em Roma, e oferecida à igreja da Companhia de Jesus. Um rico e notabilíssimo trabalho abrangendo várias áreas artísticas desde a arquitetura, escultura, pintura, ourivesaria, arte do mosaico à cantaria. É a excelência deste trabalho italiano, em que se destaca não só detalhe, mas a riqueza das matérias primas, que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa muito se orgulha de apresentar.

 

Isabel Guedes, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural