À Descoberta dos Reis Magos

As coleções de têxteis no Museu de São Roque.

9 E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. 10 E, vendo eles a estrela, alegraram-se muito, com grande alegria. 11 E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra”

Mateus 2: 9-11

 

 A Adoração dos Reis Magos e a Adoração dos Pastores constituem um tema complementar da Natividade. Com efeito, o Evangelho de São Mateus é o único a referir a vinda  dos Magos, do Oriente, para adorar o Rei dos Judeus (Mt 2, 1-12).

Desde os tempos bíblicos, a história dos homens sábios com as suas ofertas tem fascinados os povos. Contudo, a Bíblia dá-nos pouca informação acerca deles.

Quem eram de facto, estes homens? Eram sábios ou Reis? Porque traziam ofertas para oferecer ao Menino Jesus? O que são incenso e mirra? Ideias e crenças acerca destes sábios assolaram o nosso imaginário ao longo dos séculos. Os primeiros cristãos consideravam as profecias do Antigo Testamento como prenuncio de acontecimentos na vida de Jesus. Outras informações, chegaram-nos através de Santos Doutores da Igreja, que interpretavam a Bíblia.

Ao tempo do nascimento de Cristo, o povo esperava pela chegada do Messias, que vinha para salvar o mundo. Alguns sábios e profetas observavam sinais da Sua vinda. “Sábios”, é a tradução comum da palavra Magos, a palavra certa para designar os visitantes de Jesus nos primeiros textos do Novo Testamento, escrito em grego. Magos eram, portanto, mágicos ou filósofos que estudavam astrologia e de quem se acreditava que tinham poderes ocultos.

Os versículos do Evangelho de São Mateus não dizem quantos magos eram. As primeiras narrativas afirmam serem 12, mas porque só traziam 3 ofertas, logo o número 3 ficou na tradição. Por sua vez, um primitivo texto cristão deu nomes a estes homens: Melchior, Baltazar e Gaspar. Durante a Idade média, o povo começou a interpretá-los como representando os 3 continentes conhecidos na época – Europa, Ásia e África – mas com o andar dos tempos, acabariam por representar todos os povos da terra. A arte em geral e os artistas, retrataram os magos como pertencendo a 3 grupos etários: Melchior, o homem mais velho; Baltazar, o de meia-idade; Gaspar, o mais jovem e de origem africana.

Primeiramente, os magos eram representados como filósofos, vestidos como persas. Pelo século X foram igualmente representados como reis, vestidos de trajes de nobreza e usando coroas. O conceito de magos como reis teve origem numa profecia acerca da vinda do Messias que diz: “Os Reis de Társis e das ilhas trarão os seus presentes, os Reis de Sabá e de Seba oferecer-lhe-ão presentes” (SL 72,10).

Outro texto do Antigo testamento anunciava o Messias afirmando que “(…) saíra uma estrela de Jacob, e um cetro erguer-se-á de Israel” (Nm24,17). O povo acreditava que o Messias seria anunciado por uma estrela grande e brilhante. Os Sábios, ao notar o brilho de uma tal estrela, entenderiam o seu significado. As lendas medievais viam que essa estrela trazia uma criança e ouvia-se uma voz, dizendo; “Para nós nasceu Hoje o rei e Senhor que o povo ansiava. Ide e procurai-O para o adorar”. E porque eles “vieram do Oriente para Jerusalém”, entendeu-se que vinham da Pérsia, Índia ou da Mesopotâmia.

Qualquer que fosse a sua origem, eles teriam que vir de longe…De acordo com uma tradição, eles chegaram a Belém a 6 de Janeiro, doze dias depois do nascimento de Jesus, portanto uma caminhada de 12 longos dias. Porém, segundo outras tradições, eles viajaram durante um ano e doze dias. Embora apareçam muitas vezes representados a cavalo, é mais frequente serem representados montados em camelos, por serem os animais preferidos para viajar nas rotas comerciais do Médio Oriente.

Quando por fim chegaram a Belém, “viram o Menino com a sua Mãe e caíram de joelhos, e adoraram-no”. Por isso, os magos são representados normalmente de joelhos, outras vezes retirando as suas coroas e inclinando as cabeças, enquanto oferecem os seus presentes. Tanto na lenda, como na pintura, Melchior, o mais velho, aparece em primeiro lugar, trazendo a sua oferta de ouro. Baltazar, ao meio, leva o incenso, e Gaspar, o mais novo, apresenta mirra.  Algumas pinturas fixam os gestos de humildade destes homens de classe alta, que se curvam diante desta criança deitada na manjedoura. Outras, focam a ternura do momento, mostrando um dos magos a querer beijar o pé ou a mão do Menino.

Neste contexto, a coleção de pintura do Museu de São Roque mostra-nos três magníficas cenas, que Mateus nos apresenta. Na Igreja, da autoria do pintor régio André Reinoso, de 1635. No Museu, uma representação do Círculo de Gaspar Dias, de c. 1570, e outra, executada por Bento Coelho da Silveira, de c. 1656. Em todas estas adorações, Maria apresenta-se como trono do Menino, oferecendo-O à contemplação dos Magos. Está igualmente presente o exotismo nas indumentárias e a riqueza nas peças de ourivesaria que guardam as ofertas ao Menino.

Ao tempo do nascimento de Jesus, o incenso e a mirra eram tão familiares como o ouro, e igualmente raros e especiais.

O ouro – um símbolo brilhante. Brilhando como se tivesse uma luz interior, foi desde logo comparado ao sol e ao céu, daí o símbolo natural do divino e o material escolhido para os objetos sagrados. No Templo de Salomão, o altar e objetos de culto, eram em ouro. Desde os tempos antigos até hoje, o ouro era considerado propriedade da realeza. A propriedade mais importante do ouro, é a sua incorruptibilidade, não se corrompe nem se desvanece. Os povos antigos das mais variadas culturas relacionavam a incorruptibilidade do ouro com a imortalidade. Em virtude desta característica e da sua beleza, acreditava-se também que tinha poderes de cura.

O incenso e a mirra são resinas perfumadas provenientes de árvores exóticas. Estas plantas encontram-se somente em regiões desérticas, do sul da Arábia e da África do norte, nas regiões agora de Oman, Yemen e Somália. Os métodos de recolha destas duas resinas nada mudaram em mais de dois mil anos. Nas árvores do Incenso são feitos cortes, permitindo assim, que um líquido leitoso escorra. Passada uma semana, o líquido solidifica, ficando como grãos dourados que são posteriormente recolhidos. Por sua vez, a mirra irrompe do próprio tronco, de modo que a sua resina seca naturalmente. As resinas eram enviadas por mar ou transportadas em camelos até à Palestina, Mesopotâmia, Egipto, Grécia, Roma, África e Índia. As caravanas de camelos podiam incluir cerca de 1.500 camelos.

A resina dourada e perfumada do incenso era reputada como sendo divina, e os seus resineiros eram considerados também sagrados. Durante a colheita refreavam-se de certas atividades, que eram vistas como atos impuros.

A riqueza exótica da mirra, fez dela um ingrediente ligado ao estilo de vida da nobreza. O seu nome vem do termo árabe, que significa amargo; embora, sendo amargo no gosto, exala um perfume suave. A mirra era tão cara que uma simples gota podia transformar um perfume normal num perfume extremamente caro e muito procurado. Por isso, era cobiçada tanto pelos gregos como pelos romanos. A Bíblia indicava a mirra como perfume para as vestes reais, para ungir o corpo e as camas.

Por que razão os Magos escolheram levar ouro, incenso e mirra, como presentes ao Menino Jesus? São Bernardo de Claraval (1090-1153) deu uma boa explicação: ele dizia, que levaram ouro para a Virgem poder aliviar a sua pobreza; incenso para dispersar o mau cheiro do estábulo; mirra para afastar os vermes.

Porém, os presentes eram ainda para significar algo mais: o Ouro como forma de tributo à realeza, indicando que Jesus era Rei. O Incenso, que desempenhava um papel importante nos ritos religiosos e nas oferendas à divindade, mostrando que Jesus era de condição divina; a Mirra, que era usada nos sepultamentos, prefigurando assim, a morte de Jesus, indicando deste modo a sua humanidade.

Considerando as tradições que ligam entre si estes elementos materiais, torna-se evidente que as três ofertas eram representativas do Nascimento, Vida e Morte de Jesus.

Isabel Guedes, Serviço e Públicos e Desenvolvimento Cultural