A Arte da Guerra – A representação de Armaria nas coleções da Santa Casa
Do início da humanidade até aos nossos dias, a guerra é um aspeto que ainda hoje faz parte do ser humano, seja por motivos de terra, poder, religião ou até mesmo vingança. Muita da História de Portugal foi feita através da guerra.
Desde as guerras da fundação e da crise dinástica de 1383-85 (em que temos batalhas como de Ourique ou de Aljubarrota), das batalhas da conquista de Ceuta ou de Alcácer-Quibir, no século XVII as guerras da Restauração, e no XIX as invasões francesas, guerras civis e, até mesmo, no século XX com o Estado Novo, vemos que existem quase mil anos de história militar em Portugal.
A maioria das pessoas sabe que Santo Inácio foi fundador da Companhia de Jesus e que um dos cofundadores foi São Francisco Xavier, mas quantas sabem que ambos foram soldados? Santo Inácio de Loyola, antes de fundar a Companhia de Jesus, foi militar do exército do Imperador Carlos V, tendo participado na batalha de Pamplona. São Francisco Xavier também participou nesta batalha, mas pelo lado oposto. Dois inimigos juntaram-se para formar uma das maiores ordens religiosas da história.
Muitas vezes, quando se observa uma peça de arte, escapam os pormenores. Para a história militar, por vezes, são as obras de arte que permitem conhecer e seguir uma linha cronológica da evolução do armamento, seja na Europa, sejam as armas que nos chegaram vindas do Oriente.
Na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa encontramos das mais variadas peças, desde pintura, escultura, ourivesaria ou tapeçaria, e muitas delas mostram-nos aquilo que foi o armamento português, ou nalguns casos o armamento oriental.
Como por exemplo na Capela da Sagrada Família, onde encontramos uma pintura da Adoração dos Reis Magos, em que um deles tem à cintura uma wakizashi, espada curta japonesa usada em parceria com a katana, sendo ambas elementos basilares da armaria samurai.
Na sacristia da Igreja de São Roque, numa das passagens da vida de São Francisco Xavier, em que o santo abençoa os soldados portugueses, estes têm à cintura aquela que seria a principal arma dos nobres, utilizada desde o século XVI até ao século XVII, uma rapieira ou rapier. Esta arma identifica-se por uma lâmina longa e fina, sendo que no final do punho vemos anéis que protegiam a mão do combatente. Esta arma era utilizada na sua maioria em duelos. Na mesma pintura vemos a adaga de mão esquerda, utilizada pela mão contrária à da rapieira e que servia para defender de ataques ou para dar o golpe final. Nas escolas de esgrima aprendia-se a combater com ambas.
No Museu de São Roque, nas pinturas sobre a vida de São Roque, vemos dois tipos de adagas. A primeira será uma adaga de orelhas. Esta arma é muito rara de se ver representada mas identifica-se por ter o botão de punho fracionado em duas partes, o que permitia apoiar o polegar para que o golpe fosse disferido com mais força. A segunda adaga é uma adaga de origem oriental, possivelmente indiana, provavelmente um khanjar.
O património da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa contém um vasto acervo artístico. Na Igreja e no Museu de São Roque existem estes e muitos outros exemplos de diferentes armarias e com um acervo tão vasto existirão, provavelmente, muitos mais.
Este estudo das representações da armaria só é possível graças ao trabalho de conservação e restauro que a Santa Casa promove, e assim estas peças podem hoje e no futuro ser vistas e admiradas. Igualmente importante é a partilha destes conhecimentos com o público, especialmente através de visitas guiadas.
Para aprofundar o tema da armaria é possível participar nos nossos Museálogos com o Museu Militar de Lisboa, em que, de manhã, visitamos o Museu de São Roque para analisar a armaria representada nas suas obras de arte e depois, à tarde, vamos conhecer essas armas ao vivo no Museu Militar.
Como já foi dito, a Cultura Santa Casa organiza ações de divulgação deste património, seja através de visitas guiadas ou itinerários temáticos, mas também através da via digital, como a newsletter temática onde se enquadra esta rubrica.
Pedro Rocha, Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural