Roque de Montpellier. As histórias que escolhemos

São movediças as fronteiras entre ficção e realidade, universos que se confundem e interpelam, mesclando épocas, cenários e protagonistas numa caótica meada de mil pontas soltas. É à luz deste incessante diálogo que se compreende o recente resgate para o espaço público da figura de São Roque, santo protetor contra as pestes e padroeiro das vítimas de epidemias, personagem que regressa do século XIV em que as crónicas o colocam para o atual compasso do século XXI. Para lá da espuma dos dias, na Misericórdia de Lisboa o lugar de São Roque não é o do efémero. Por ser um santo tutelar da secular instituição, o Centro Editorial decidiu dedicar-lhe um livro, feito a pensar nos leitores mais jovens, concebido e produzido antes de uma pandemia virar o mundo do avesso, conjuntura que convida a revisitar uma história intemporal que será apresentada ao público em breve, sob a forma de um conjunto de páginas que somam letras e traços sob o título “A vida extraordinária de São Roque”.

Em pinceladas largas, esta crónica de Roque de Montpellier narra a vida de um homem nascido entre finais do século XIII e início da centúria seguinte na região de Languedoc, no sul de França. Filho de uma família abastada, pupilo de uma educação aprimorada, virou costas ao destino de abundância e fortuna que lhe estava reservado por herança, para se entregar de corpo e alma à vida de peregrino. Uma existência repleta de perigos, desafios e adversidades, toda desenrolada em movimento, cada passo dado na ignorância dos reveses que o próximo podia trazer. Contratempos que se agigantavam no cenário pandémico que então assolava toda a Europa, onde as casas de mulheres e homens, jovens e velhos, ricos e pobres eram invadidas sem cerimónias pela brutal peste bubónica, expressivamente apodada de peste negra.

É no decurso desta intrépida caminhada em cenário hostil que Roque se ocupa do auxílio aos pestíferos, entrando onde todos os outros voltavam as costas. Uma presença que a lenda relata não só lenitiva mas curativa, transformando assim o peregrino em inusitado herói de feitos extraordinários. Este dom que as crónicas lhe atribuem era indiscriminadamente distribuído por todos, de igual modo entre os que se amontoavam nos hospícios como no leito de um cardeal de Roma. É no decurso deste quotidiano de dedicação que Roque de Montpellier acaba por contrair a peste negra, tornando-se mais uma vítima do mal que combatia. Nesse momento, escolhe afastar-se do mundo, abrigando-se numa floresta de Sarmato, em Itália. Autoimposto enclausuramento que visava erradicar qualquer possibilidade de contágio dos demais. Dessa reclusão saiu Roque curado, bebendo das águas cristalinas de uma fonte providencialmente indicada por um anjo, comendo o pão que todos os dias lhe levava ao eremitério um dedicado cão.

Este poderia ser o ansiado fim feliz que gostamos de encontrar no remate das histórias, mas há narrativas que continuam para lá da resolução da peripécia, que não se encerram num único desfecho. Têm mais a oferecer e adiam o ponto final. Curado e recomposto, Roque regressa ao mesmo mundo de que se afastara, apenas para voltar a ser encarcerado, agora na prisão da cidade que o vira nascer, sob a infundada acusação de espionagem, lançada por uma comunidade entretanto dilacerada pela guerra e pelo medo. Jamais rebateu a acusação de que foi alvo. O peregrino de amplos horizontes morreria entre a escuridão de quatro paredes.

Esquematizadas estas amplas pinceladas de uma crónica maior, a história de Roque de Montpellier emerge não como uma, mas muitas. Tantas quantas as pessoas que escolhem conhecê-la e emprestar-lhe o seu olhar singular de leitor. No mundo dos livros, ninguém nos tira a liberdade de preencher as entrelinhas a nosso belo prazer. Construímos a história que escolhemos. Puxamos um dos fios da tal caótica meada e, no cruzamento entre ficção e realidade, entre passado e presente ou entre protagonistas, ora encontramos um conto moral, um exemplo humanista, um clamor contra a injustiça, um apelo espiritual, uma esperança, uma memória, uma historiografia, ou simplesmente uma aventura extraordinária, daquelas à moda antiga, com heróis, vilões e todo um universo mágico que nos prende até ao fim. Podem ser crónicas que encerram ensinamentos, interpelações, consolo ou inquietação. As histórias são o que são. Mas também são o que o que fazemos delas. É assim nos livros. É assim na vida.

Ana Gomes, Centro Editorial

Ilustração: Catarina França, Centro Editorial