Do movimento pelas palavras

Notas soltas
À volta do Património da Santa Casa

Atrasada, uma rapariga pede aos amigos que lhe arranjem um espacinho entre os bancos. São dez da manhã e na igreja já não há lugar. Um dos guias do Museu começa a falar. Os miúdos estranham, não era o que esperavam. A grave e alta voz enche a grande nave de São Roque. O assunto é fascinante e todos já só conseguem imaginar como seria há 400 anos. Segue-se uma recriação. No púlpito, de hábito jesuíta, João Grosso diz um sermão. O autor do dito? Padre António Vieira.

A cena repete-se todas as segundas-feiras, de Setembro a Dezembro. A procura é tão grande que criam-se sessões extras nos meses seguintes. A arte oratória do Paiaçú (Pai Grande, como lhe chamavam os índios) é capaz de prender ainda o público da nossa época, tal como no século XVII, quando de madrugada se ia para São Roque guardar lugar para ouvir a pregação do ilustre sacerdote Jesuíta.

Na sua escrita, a palavra é nota de música e o dizer viagem. Ritmo acelerado, pois tantas são as coisas a dizer como as que há a salvar: a vida devota e cristã; Portugal, o rei, o império e a independência; os escravos, os índios, os cristãos-novos. Para Vieira tudo é assunto e não existem fronteiras entre a religião e a vida da sociedade, pois as duas coisas coincidem e o cristianismo não se compadece com dualismos. Ler Vieira é deixar-se sentar num comboio que atravessa todo o universo – o tempo e a eternidade –, através das paisagens mais bonitas, também elas cheias de tumultos e inquietações – que, de resto, sempre ousou combater.

Autor de pareceres, papéis, obra profética e messiânica, são as suas cartas e sermões que mais o notabilizaram. São Roque – igreja e casa de jesuítas – foi lugar da sua pregação várias vezes, como daquela em que disse o célebre “Sermão das Quarenta Horas”, em 1642, ou o “Sermão de São Roque”, dito no mesmo ano e de que transcrevemos parte:

«Este sois, divino Roque, este ao mundo todo por benefício, e este aos religiosos desta casa por imitação, que pouco fora recebê-los debaixo de vosso patrocínio, se lhes não comunicáreis juntamente as gloriosas participações de vosso fervoroso espírito. Verdadeiramente que, quando considero – seja-me lícito, ao menos, pelos privilégios de estranho, dizer o que venero e o que admiro – quando considero a verdade com que pode dizer a casa de São Roque: Quis infirmatur; et ego non infirmor? Que enfermidade, que males, que trabalhos há em Lisboa, que a caridade desta casa não participe? Nos hospitais, nos cárceres, nas aflições e sentimentos particulares, que sempre são mais que os públicos, quem os padece neste grande povo, que não reparta a sua paciência com a caridade dos religiosos desta casa? Que enfermo que os não tenha à cabeceira? Que preso que os não ache à grade? Que condenado que os não leve consigo ao lugar do suplício? Finalmente, que necessidade espiritual ou temporal, que não venha buscar aqui, ou o remédio, ou o alívio, ou a companhia? Quando tudo isto considero, me persuado que deve esta graça a Companhia ao glorioso padroeiro desta casa, e que a gozam os religiosos dela mais por padres de São Roque que por filhos de Santo Inácio. Lá, quando aqueles anjos peregrinos se agasalharam em casa de Abraão, louva muito Lipomano a caridade com que Sara e Ismael os serviam, mas não conhece neles esta virtude pelo que tinham de parentes, senão pelo que tinham de domésticos de Abraão: Uxor accelerat, puer festinat: nullus piger est in domo sapientis. – De maneira que era filho Ismael de Abraão, mas aquela diligência e caridade não resplandecia nele porque nascera de seu sangue, senão porque vivia em sua casa: era filho diligente e caritativo, mas não era diligente e caritativo por filho, senão por doméstico: Nullus piger est in domo sapientis. – Alguma razão tenho eu logo para dizer que devem os religiosos desta casa os fervores de sua caridade a São Roque, mais que a Santo Inácio, porque de Santo Inácio são filhos, mas de São Roque domésticos. Não são isto privilégios da filiação, são proveitos da moradia: no instituto são obrigações da vida que professamos, no exercício são influências da casa em que vivemos.»

As palavras do Padre António Vieira são cheias de movimento e ânsia de novidade, de amor pelo infinito e pelo finito, de drama, exuberância e teatralidade, entre formas complicadas da estrutura, mas simples para os que a obra contemplam, numa audaciosa mistura de artes que apelam ao instinto, aos sentidos, ao maravilhoso, à fantasia, ao fascínio, ao que sendo humano está para lá do humano, num jogo de sombras que remete para a luz, para a ingente eternidade; em suma, são barroco. O mesmíssimo barroco que é a plástica da arte e da arquitectura da Igreja de São Roque, relação que o desafiamos a conhecer e a visitar (quando o covid deixar, já se sabe).

Bernardo Cardoso
Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural